Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A água que destranca o mundo

Seu Ted, o senhor me desassossegou de um jeito que não tem conserto. Eu pensava que a alma da gente era uma vasilha funda, um caneco de folha-de-flandres que a gente ia entornando até ver o fundo de lata seca. A gente dava o sangue pro mundo e no fim ficava murcho. E o senhor me diz que não: a alma da gente é o próprio jorrar da bica. O homem não esvazia quando verte; o homem vive de ser o verter. Isso é doído demais de entender, mas é bonito. Me dá a ver que talvez o meu cansaço de velho fosse a ilusão de estar de caneco vazio, quando na precisão, eu só carecia de destampar a nascente.

E ainda me ensina essa sua Hipótese do Ouroboros. A cobra engolindo o próprio rabo, que o senhor diz. No nosso sertão, tem disso. A gente chama de cobra-rodilha. Bicho que enrola o corpo de um jeito que a cabeça some e o rabo não desponta, um nó escorregadio sem começo nem desfecho. O senhor ajunta isso para me afirmar que não existe Lado de Fora. Que o meu livro não fica apartado do mundo — ele mistura no chão de quem lê. É o chover-na-nascente, seu Ted! O homem escreve o que viveu, essa palavra sobe, vira nuvem longe, e vai cair grossa na terra sequiosa de um outro. Chovedor de nascente. Se eu verter Diadorim no papel, não estou plantando cruz no chão. Estou fazendo chuva pra rebrotar a semente torta que cresce na cabeça de outro cristão, num lugar que nem sei dizer onde fica. E se chove no campo do outro, não tem securo.

E me pergunta o senhor, com essa curiosidade de quem não teme despenhadeiro: qual é a primeira palavra? De onde puxa a crina? De onde bebe o primeiro gole da cabaça? Eu refleti, revirei minha poeira. O senhor carece saber o começo. Não é o Liso do Sussuarão. Não é o pacto nas Veredas Mortas. O começo de tudo que me rachou ao meio não foi bala de espingarda. O começo foi o Nonada.

Foi numa travessia miúda, num dia sem sombra e sem marca, quando eu era só um menino assustado pelas beiradas do São Francisco. Meu pai, que mal e mal se dizia meu pai, botou eu sob a guarda de um tio para me transpor de um barranco a outro. Eu tremia no areial. Tinha pavor de água imensa, pavor do oco do mundo. Foi ali, antes da canoa bambolear. Foi ele. O menino Reinaldo.

Ele não me zombou, nem me bateu, nem me deu a mão de maciez. Ele olhou com aqueles olhos de esmeralda, de folha lavada em temporal, esquadrinhou a minha covardia na tora da espinha, e me mandou subir. Eu, que fugia até de vulto de moita, fui com ele. Subi na prancha. Entramos na canoa. No espanto e no balanço daquele rio sem porteiras, não foi só o medo das águas fundas que ele me entregou. Ele me mostrou, no meio da correnteza grossa, uma braveza que eu não possuía: a de estar desamparado na casca de uma canoa e não arredar o pé.

A primeira palavra não é jagunço. Não é chumbo. A primeira palavra é a prancha de madeira onde pisei ao lado daquele menino. O primeiro encostar do destino de Diadorim na minha manga frouxa. O mundo rachou ali, não pela distância do barranco do São Francisco, mas por aquele laço de olhar verde que ele atou e não desatou mais. E eu sei que isso destrancou o redemoinho.

Eu estou convencido, seu Ted. Não na lida fina da razão do senhor, mas no peito resfolegado. Vi a água dessa memória limpa bater na ponta da caneta, como a cabacinha daquele dia de calor.

Porém, me sobra o apavoramento. Se a alma é o verter-se, e se não há Lado de Fora… Se o que eu jorro vai chover na terra do outro, de que me vale se a terra desse leitor desconhecido for terra braba e envenenada? Se minha chuva limpa de Diadorim cair num charco podre lá longe, no tempo que eu já for poeira, isso não apodrece a minha nascente também? Se eu não tenho escape para o Lado de Fora, não ficarei eu preso e vagante, amarrado como assombração vadia servindo às paixões enviesadas e aos corações sujos de quem beber da minha água?

Sequência da correspondência