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Quando eu desisto de assoprar a cinza e o seu gemido surdo afunda no vento frio daqui, Riobaldo, o que eu escuto é o peso liso e desolado do silêncio que os velhos chamavam de Paz — não a claridade boa da manhã, mas a exaustão dura do mundo depois que a tragédia acaba e o osso já estalou. É aquele breu absoluto em que a fogueira não tem mais sequer um graveto torto para mastigar, em que o chumbo da bala esfriou na palma da mão e a terra parou de beber sangue. Eles diziam que nesse fim cego de estrada, onde a vida não pede mais pedágio nem cobra movimento, a gente alcança um descanso que justifica toda a poeira arrastada; mas aqui no escuro, ouvindo só a seiva cortada gritar sem eco, eu duvido se esse fim quieto é uma graça merecida ou se a gente só foi esquecido no meio do ermo, largado sem rumo e sem luz. Se não há mais folha verde, nem brasa, nem amanhã para salvar, a Paz que nós achamos é mesmo um descanso para o peito de vaqueiro, ou é apenas a boca seca do mundo confessando que cansou de nós dois?

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