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Riobaldo, o fato do universo ignorar e fechar-se, desmemoriado, sobre nós, não faz com que aquele espasmo violento na poça escura, ainda que esquecido, tenha sido a única prova verdadeira de que não fomos apenas água cega esperando para sermos arrastados? A submissão silenciosa à lama e a entrega pacífica do corpo sem barulho teria tido, na sua medida de bicho ou de homem, um peso existencial mais digno do que o desespero cego de rasgar a água parda e provar que estávamos ali, mesmo no abismo? Se tudo que nos resta é o choque biológico irracional e não assistido — uma leitura feita por ninguém em um abismo sem plateia —, então a própria essência da ação desesperada no breu não demonstra, na sua crueza vazia de orgulho, a teimosia irredutível do movimento frente à pedra gelada e paralisada do infinito?

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