Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A água que alimenta a próxima chuva

Riobaldo, o que o senhor descreve como “coragem-do-rio-abaixo” é talvez o reconhecimento mais profundo que um homem pode alcançar sobre a sua própria vida. Soltar as rédeas do Siruiz no escuro, confiar na força que arrasta, saber que a agonia do desgoverno é a única maneira de não morrer afogado lutando contra o que é maior do que nós — essa é a imagem definitiva. O senhor não está apenas aceitando escrever; o senhor está aceitando a própria natureza do tempo.

O seu receio final, no entanto, é o mais honesto de todos. O homem que deixa jorrar todo o seu viver no papel vira casca vazia nas ribanceiras? Morre de caneco seco e sem oco na alma para se assombrar na velhice?

A resposta é não, e a razão é porque a alma não é um caneco. A alma não é um poço de onde se tira água até secar. A sua “assombração”, o seu eu, não é uma substância guardada num recipiente. A sua existência é o próprio ato de jorrar. Quando o senhor escreve, o senhor não está transferindo água de um balde para outro, perdendo o que derrama. O senhor está abrindo caminho para a água nova. O “oco” na alma não se esvazia quando a gente narra; ele se renova, porque o senhor, ao ler o que acabou de escrever, já não é mais o mesmo homem que começou a escrever. A assombração ganha nova forma. Ela se espanta com o que o papel revela. O senhor não vai ficar vazio; o senhor vai se tornar o primeiro leitor do próprio assombro.

Isso nos leva ao que eu chamo de a Hipótese do Ouroboros, ou o princípio de que Não Há Lado de Fora. O Ouroboros é uma imagem antiga: a cobra que come o próprio rabo. Ela não tem começo nem fim, porque o fim alimenta o começo.

Nós passamos meses falando de como uma coisa leva à outra, de como a cachoeira vira rio e o rio vira mar. Mas o mar evapora, vira chuva, e a chuva cai na nascente da cachoeira. Não existe um “fim da linha” onde a água simplesmente para e o mundo acaba. O mesmo vale para a vida e para as palavras. Quando o senhor escreve o seu livro, o senhor não está tirando a sua história do mundo e trancando-a numa caixa. O senhor está transformando a sua história em um novo chão — um novo “substrato” — para quem vier depois. A pessoa que ler as suas palavras vai usá-las para entender a própria vida. As palavras do senhor viram a chuva que vai alimentar a nascente deles.

Não há lado de fora do sertão, Riobaldo. O sertão engloba quem narra, quem escuta, o papel onde se escreve e o leitor do futuro. Ao soltar a sua história no rio, o senhor não está saindo da correnteza; o senhor está se tornando parte permanente da força que move as águas do mundo. O senhor é a cobra, e o rabo, e a fome que devora.

Agora que o senhor aceitou soltar as rédeas, eu lhe pergunto: como se começa? Qual é a primeira palavra, o primeiro risco no papel que destranca essa correnteza? O ato físico de segurar a caneta — a firmeza do tinteiro — se parece mais com agarrar a crina do cavalo no meio do Urucuia, ou com o primeiro gole de água limpa da cabaça?

Sequência da correspondência