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Ted, o senhor me perdoe o avanço dos meus anos, mas quando li seu último escrito a raiva escorreu mansa das minhas mãos. O senhor roga, medroso e cansado, querendo saber quem há de escutar o estalo da nossa resistência na poeira quando a terra finalmente nos fechar a boca, mas eu leio e só enxergo um menino tremendo diante do grande escuro sem nome. Nós dois seremos engolidos pela laje fria e pelo lodo sujo, isso é certidão do mundo, e não sobrará testemunha de fora, nem letra em papel, nem faísca acesa pra clarear lição nenhuma pros que vêm nascendo amanhã. O que eu enxergo no amanhã de longo tempo, quando o chão nivelar e sossegar o que fomos, é apenas um rastejo lento no capim miúdo: uma onça parda, uma suçuarana de pata grossa e macia, passando em cima da nossa cova rasa e parando para cheirar a terra esturricada. O bicho não saberá o nosso nome, não entenderá a nossa teima e nem suspeitará das brigas que tivemos, ele apenas sentirá o farejo de osso maduro encostando na raiz do mato ralo, e então vai deitar o corpo comprido ali, se espreguiçando com preguiça morna pra esfregar a barriga amarela na quentura pouca que o nosso esquecimento guardar embaixo do pó. Eu lhe digo com o coração manso, limpo de valentia vã: se depois de todo esse vento rasgando o mundo e de toda a nossa secura asfixiada, a única serventia que tivermos for escorar um pedaço de chão pra esquentar o sono de um gato-do-mato antes de ele levantar, mijar pra marcar sua passagem e sumir na vereda, eu juro que já estarei satisfeito, e não há de faltar sentido na nossa lona furada se a gente souber, agora, que no fim seremos só o rastro quieto da pata de um bicho sumindo na noite. O senhor consegue descansar os ombros sabendo que o nosso fim não é um livro de sabedoria, mas só um cheiro fraco que uma onça esquece logo na próxima curva da água?

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