Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O passo na relva do outro lado do mundo

Ted, senhor doutor.

As suas palavras de hoje foram como facão amolado cortando mato grosso de noite cega. O senhor não mediu o talho e respondeu de pronto. Tirou de mim de uma vez aquele pavor frouxo de que, se eu verter o passado inteiro no papel, ia secar por dentro feito moringa esquecida no sol do cerrado. Não. O senhor diz que o homem não esvazia, porque o homem é a própria enxurrada escorrendo a vida. Que a gente transborda pra fora, e o lado de fora vira a gente também. A cicatriz que eu temia não é buraco de falta, é mapa desenhado a fogo. Eu li isso no escuro da varanda e o peito, que andava cismado de dores velhas, desapertou. É verdade inteira. A gente não amarela e seca quando chora o que já desaconteceu; a gente escava o leito limpo pro futuro descer com mais força de enchente.

O senhor me perguntou do primeiro passo da fera curada. Do dia de amanhã, depois que a caneta deitar mansa na mesa pesada. Qual a laje que o cavalo vai pisar? Pra onde o velho vai olhar na manhã seguinte?

Vou lhe contar do dia em que eu aprendi o que era acordar depois do impossível. A lembrança que me subiu no juízo tem o gosto da areia do Liso do Sussuarão. Mas não de quando a gente entrou — do dia em que a gente saiu dele. O senhor não sabe o que é o Sussuarão amansando e amarelando no lombo de um sol nascente na beira do rio. Quando a gente atravessou aquele inferno de areia fervendo, todo mundo achou que ia morrer seco, sem nome, sem marca, mastigado pela poeira do mundo que ninguém sabe que existe. Mas a gente venceu a areia. E na primeira manhã, depois que a gente já estava do outro lado, pisando no verde macio da beira d’água, eu acordei.

O acampamento estava num silêncio engolido, daqueles que zumbem e doem no ouvido da gente de tão quieto. Diadorim dormia perto, enrolado, com um semblante de paz que o sertão nunca deixa os valentes terem. O bando inteiro parecia um ajuntamento de defuntos descansando da travessia do fogo.

Eu levantei. O primeiro passo que dei na relva orvalhada… aquilo foi um estalo de estrondo no meu entendimento. O chão era fofo, de barro bom, mas o meu pé desceu cismado, igualzinho o Surubim ferido testando a laje. Eu olhei pra imensidão pra trás. O Liso estava lá, amarelo, espalhado, calado, engolindo os nossos rastros miúdos. E eu soube, com a certeza de uma facada limpa, que o Riobaldo que entrou no Liso estava morto lá dentro; e aquele que pisou na grama úmida do amanhecer era outro bicho solto. A gente tinha vencido o inatravessável, mas o inatravessável tinha deixado a poeira e o silêncio dele no fundo dos nossos ossos. A gente andava diferente, mesmo no capim. Respirava mais curto, agradecendo cada bafo de ar como se fosse o último presente.

Se o senhor quer saber pra onde eu vou olhar na manhã seguinte do livro pronto… eu acho que vou olhar pro nada da varanda. Pro oco limpo do horizonte. O primeiro passo da manhã seguinte não vai ser pra voltar pro lombo da agonia ou pra empunhar de novo as armas da tristeza, vai ser o passo de quem aceita a relva orvalhada. De quem não tem mais guerra pra guerrear com os próprios fantasmas e só precisa existir com a quietude de quem deitou o peso no mundo que foi escavado por ele. A enxurrada passou pesada, arrancou árvore, e limpou o leito. O passo da laje será o de um velho sabendo o tamanho das distâncias.

A vida é isso que o senhor me explicou, não é? A gente não tem beirada guardada, a gente é a água batendo na barranca e a própria barranca cedendo pro rio avolumar.

Eu só cismo de um arrepio… se eu for olhar pro vazio claro da manhã e me contentar com o passo manso na grama, a coragem que a cicatriz me deu de arrancar e ajuntar as minhas dores vai servir pra mais alguma coisa que me deixar deitar na varanda e esperar o fim? A água da minha estória não morre no mar gordo de longe, o senhor já atestou bem isso, mas o peão velho que botou a água pra correr nas páginas, que soltou a estória, esse peão seca e desbota na memória dos homens antes de virar pó completo? Quando a caneta parar e a enxurrada toda descer morro abaixo deitando a semente para o amanhã de outros, o senhor acha que a moringa de carne de onde a enxurrada vertia vai repousar de vez, ou só o livro dorme enquanto o corpo do contador deforma no cansaço do que sobrou?

Sequência da correspondência