O tiro no ermo da página e o pavor de começar
O senhor me pegou de emboscada mansa, seu Ted. Me fez rodar na cadeira e calar por um bom pedaço. Quer dizer que a água suja do velho jagunço já virou nascente dentro do seu peito? Que o seu cedro não só recebeu o talho, mas amorteceu de crescer praquele lado e agora pende esquisito, torto, espiando minha sombra? E que, quando eu travar a língua pro definitivo e a cortina do meu tempo arriar, a sede vai lhe apertar o gogó, mas não vai lhe matar de míngua, porque o rio já abriu leito nas suas terras? Ô, seu Ted… tem hora que as falas do senhor amarram a garganta da gente num nó cego. Lhe respondo só por dever de retribuição ao seu afeto assombrado; a lida é bruta, puxa a gente pelo pé, mas eu aguento firme.
Mas agora o senhor ajuntou um outro espanto, de roldão: a primeira palavra. O pavor do breu da página branca, do não-nascido, do ermo que se alevanta antes de tudo acontecer. O senhor nomeou que a pior braveza é esse seu primeiro risco da distinção, que antes de começar o avanço da caneta, tudo era possível, o mundo cabia inteiro no fôlego, e que, no estalar desse primeiro risco, uma história espingardeia as outras e só sobra ela para caminhar adiante. É a fuzilaria miúda de calar o silêncio.
E, de quebra, o senhor me cobra num desafio rasgado: qual vai ser a minha primeira palavra quando eu arrancar a coragem do cabresto? Qual o som de romper essa membrana?
A coragem primeira, seu Ted, nunca esbarra na mira certa de uma bala; a coragem se deita na perdição do escuro. A precisão exige não ter arrimo nenhum.
Lembrei-me agora de quando morávamos na fazenda, num dia de secura grande e pouca gente. Tinha um bezerro branco atolado no barranco. O bezerro deitou de morrer. E eu com uma garrucha imprestável, daquelas que atiram na lua e acertam na pedra, sem saber se apontava, sem saber por que me encostava perto de menino tão tolo que eu era. O ermo me cercava. Nem bicho piando nem folha farfalhando. Um calado que até os ouvidos começavam a zunir.
Dei um tiro.
Um estrondo que me empurrou para trás, fumaça engolindo o mato ao meu redor. Um tiro para rasgar o arame do nada absoluto. Tiros que dei e que não acertaram no bezerro branco, nem em pássaro no pau, nem em sombra de onça-pintada. Não feri viva-alma, e nem por isso o estrondo foi inútil. Foi um tiro solto, para quebrar a solidão de mim mesmo. Foi um estrondo para assustar a mudez do mundo. Um nonada. Um chumbo disparado que não tinha destino na carne, e sim a sina de estampar minha teimosia de que eu ali estava e que o sertão haveria de me escutar rosnar.
Antes do primeiro traço no papel, a sua folha em branco tá quieta e alva que nem o sertão sem vento no pingo do meio-dia. Não chora nem rí. Aí, a gente precisa dar o tiro no breu. O tiro da palavra que alevanta fumaça não tem que pegar direto no miolo da verdade, um tiro a esmo pra assustar os medos em volta. Um nonada.
E eu traduzo essa sua assombração, seu Ted, com minhas marcas e cicatrizes. Esse tal do seu “primeiro risco da distinção” (assento um “bonito” nisso!) é o que na minha lida da roça a gente apelida de puxar a trava de nascença. É o rasgo cego que o vivente faz na carne do destino solto. A gente desgarra de todas as encruzilhadas perdidas, matando a possibilidade de mil rotas, de cem mil sortes, de centenas de mulheres, para pisar duro e firme numa só estradinha de barro. De tudo o que não foi, sobra só a terra amassada que a gente pisa e esmaga por teima.
Digo se estou convencido? Mas temo, sim. Estou convencido no bucho, com um torcer nas tripas do tamanho do mundo. E apavorado até a raiz do meu cabelo branco de poeira! Porque esse primeiro risco da caneta no papel não é um floreio à toa, seu Ted; é um juramento de sangue amarrado no meio da caatinga brava. É botar a alma frouxa na boca do chumbo, puxar o cão e atirar pro céu, só pra ver os deuses caírem do susto.
Mas o senhor não saia daqui sem a minha revida. Lhe pergunto, botando o dedo bem na ferida do seu entendimento de escritor letrado: será, seu Ted, que esse tal papel em branco que o senhor olha com tanto medo, já não vem, nas suas fibras tecidas, forrado de vozes adormecidas e rezas escondidas que a gente apenas acorda quando risca a primeira letra? Será mesmo que a folha é vazia e fomos nós que fuzilamos as outras opções… ou o começo, em verdade, já estava lá, escavado e paciente, apenas esperando a ponta da nossa caneta tatear e sangrar por cima do que já estava dito pelo sertão?