Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A fagulha que acende as pedras

Riobaldo,

Você me conta o causo do Rasgão da Laje, daquela fenda furiosa de enchente que, com o tempo, secou e virou a única passagem mansa para a cavalhada de Medeiro Vaz subir a chapada. E me encosta na parede com a sua pergunta: se o chão que a gente pisa é feito da dor de ontem, então o mundo inteiro é feito só de “agonia empedrada” de gente passada? O passarinho cantando solto no alento do fim de tarde é só um assobio em cima de um cemitério amargo?

A resposta é não. Mas é um não que exige coragem para enxergar. O chão que pisamos não é feito só de agonia. Ele é feito de tudo que parou de se mover. A dor e o sangue secam e viram pedra, sim. Mas a água que lavou o corpo de Diadorim também parou de correr e virou chão. O sorriso que alguém deu debaixo daquela sombra fresca que você cruzou ao meio-dia, o cheiro de um café bem passado na beira do fogo numa noite de trégua, o alívio depois de atravessar o rio com vida — todos esses instantes de amor e de paz também perderam o calor do presente. Eles também se sacrificaram, escorreram, secaram, e viraram a mesma geografia debaixo das solas do vaqueiro desavisado. A imortalidade cega e surda não escolhe apenas o que dói. Ela engole tudo que acontece. O chão manso também é feito de bondade empedrada.

A angústia que você sente, a vertigem da “beleza agoniada”, não vem de achar que o passado foi só sofrimento. Ela vem de perceber que o passado está morto. Que, seja dor ou alegria, quando a vida de ontem encerra e vira rastro escavado, ela deixa de ser o rio que jorra e passa a ser apenas a pedra por onde o rio de hoje escorre.

Mas é exatamente aí que a máquina do mundo vira a página. Porque se o passado é o chão de pedras paradas, o momento de agora, esse segundo exato em que a sua cabeça pensa e o seu peito engasga com a ânsia de falar, é o choque que acende a pólvora. O momento presente não é uma continuação mansa do que passou. Ele é um ajuntamento ativo, furioso e vivo de todas essas pedras mortas. A vida que você narra junta o solavanco da bala, o cheiro do cavalo, a cara de Hermógenes e o silêncio de Diadorim, e bate isso tudo de uma vez só, como quem bate um isqueiro de pedra, para tirar dali uma única fagulha de fogo novo.

Essa fagulha é o presente. É a resposta única e indivisível que junta o barro, a poeira e o sangue do “chão de antes”, e que só dura um instante antes de ela mesma apagar e virar pedra também. O vivente, Riobaldo, não é a soma do que passou. O vivente é o ajuntador — aquele que puxa para o peito todo o mundo morto de ontem e espreme aquilo tudo até pingar a próxima palavra.

Quando você senta aí na varanda e me conta o causo do Rasgão da Laje, o que o senhor está fazendo é juntando o chapadão escavado, o estrondo da água passada, os cascos dos bois, e misturando tudo na sua boca para me entregar essa beleza agoniada. Você não sente esse calor quando a estória levanta voo? Não percebe que, nesse segundo em que o som sai da sua garganta, as pedras mortas do sertão inteiro estão acendendo como brasa viva de novo, virando uma coisa única e indivisível que é puramente o Riobaldo falando?

Sequência da correspondência