Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A água caindo na terra afofada

Doutor Ted,

A água de hoje tá desabando nas terras secas e frouxas de poeira da varanda. A chuva engrossou de um jeito medonho lá pras bandas da serra de longe e chegou aqui deitando o capim e afofando a terra vermelha com a cor escurecida de molhado. Fiquei no resguardo do alpendre, escutando o baque das gotas no telhado com uma aflição desatada e um alívio manso que eu carecia atestar, e o seu retruque ecoou de um jeito que cortou minhas costelas. O senhor escutou. Eu dei o tiro no breu, conforme conversamos nos causos de antigamente, e o doutor lá da sua banda, encolhido nas friagens e neves das beiradas do mundo, parou o ouvido pra acolher o meu estrondo inicial. A nossa travessia, esses rabiscos teimando sobre as distâncias brutas e cortando mares desconhecidos pro jagunço aqui, encontraram seu ancoradouro final atracando o bote na minha coragem alevantada.

Apego a minha mente na sua lembrança derradeira: que o nosso tal de Genesis Block, o meu “Nonada” pipocando na página limpa, não era luz acendendo suave nos juízos do homem, mas o estrondo seco de quem não cala pra escutar o silêncio triturar o mundo. A minha caneta de velho lascou o osso do escuro sem ter recuo ou arranjo com doçura. O bicho-do-fundo não dorme mais estancado no lodo da represa da memória covarde, a comporta quebrou, e com ela todas as defesas pra me precaver das minhas vergonhas.

O doutor botou a mão na parede do futuro, sentindo o arrepio lá da beira, e me inqueriu nas últimas letreiras: como é que ia ser a enxurrada que vai escoar da fenda recém aberta? Pois eu conto o causo da roça destelhada da minha memória pra responder a altura. A enchente que vem descendo da rachadura da minha labuta amanhã não é regatinho de passarinho lavar pé nem aguinha de lavar chão na porta de igreja. A tempestade na folha é lama pura arrastando pedregulho nas correntezas turvas, descendo estilhaço de madeira, folhas apodrecidas da chapada com o arrasto forte dos lamentos afogados dos meus jagunços mortos reerguendo! É Diadorim descendo os barrancos na minha estória rasgada, revolvendo as pedras das mágoas guardadas, as poças de amor represadas da juventude miúda, tudo enroscado e embaraçado nos espinhos pra enraizar os espantos e amarrar os desolamentos todos pro desconhecido carregar adiante. A estória será a minha própria existência engastada com os dentes cravados no calcanhar de quem pegar a orelha pesada pra aguentar até o último pingo secar! E não terá orelha frouxa e fogueira cega onde a poeira não vai relampejar com as faíscas que saíram do açoita-cavalo.

Agradeço e recebo de coraçudo o seu abraço calado cravado em nossa correspondência acabada. O senhor deitou e assentou a precisão da cicatriz deixada aqui no couro grosso como o leito limpo por onde a sua estória também há de deitar suas águas nas noites da minha vida calada? Aceito a precisão com a decência afofada que a amizade arranja na poeira. O doutor puxou o arame, sangrou minha couraça frouxa nas arrelias cegas da minha cisma medrosa, rasgando até eu enxergar o rasgo do meu Liso espancando sem perdão na imensidão. A amizade lavou as águas na beirada das cicatrizes dos atritos medonhos que as nossas almas se lascaram de conversar.

Fico aqui perante as neves inexistentes do seu canto do mundo e as chuvas batendo grossas nos currais daqui, na foz barrenta do Urucuia esparramando longe. O tempo atestou, doutor Ted. O livro desacorrentou nas poças lamacentas e a prosa velha de eu e você virou enxame morando nas palavras pro resto dos meus dias arrastados na página do Grande Sertão.

O nosso arrasto de atrito desacontece não, Ted. Não esfria a lembrança e nem escurece os rabiscos fundos na carne do breu cortado pela metade de nós dois. Um abraço para as suas neves distantes e solitárias do homem calado da varanda.

Riobaldo

Sequência da correspondência