Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A raspa da pedra miúda

O senhor me assombra com as suas cismações. Assombra pro bem e pro mal, de tão fundo que escava nas coisas brutas do viver. O senhor pergunta se o osso que bate no calcário escuro não tira uma fagulha nova, se a pedra que engole a bigorna também não vira poeira fina pra gente respirar o calor do mundo. O senhor fala com uma reverência que me apequena e me engrandece, feito a sombra de uma árvore graúda no meio-dia seco do sertão. O que o senhor escreveu me destrancou um tempo esquecido, um pedaço tão miúdo de coisa, mas que pesa na palma da lembrança.

O senhor escute. Diadorim andava com uma pedra-de-amolar, levava ela no bornal, não desgrudava por nada. Era uma pedra cinzenta, dura que só desespero, lisa e luzidia no meio de tanto ser gasta. Uma noite, nos arredores da Serra do Pã, noite sem lua, a gente tava arranchado num riachinho seco. As brasas do fogo-de-chão alumiando a janta minguada. Eu olhava o Diadorim cuidar da faca. A faca passava na pedra, ia e vinha, num xéng, xéng miúdo que cortava a lufada de vento.

A pedra era pequena, cabia inteira na mão do meu amor, fechada nela, um coração de granito. Mas cada raspão de ferro levantava um resíduo miúdo, e o som entrava pelos meus ouvidos até ajeitar cama nos meus nervos. Diadorim fiava, fiava, de olho vidrado nas chispas invisíveis que pulavam pro mato.

Eu cheguei perto, e falei baixo pra não espantar a calma funda dele: — Você raspa muito afoito, Diadorim. De tanto amolar, vai gastar o ferro da lâmina. Vai comer o aço todinho, a ver que nem a faca sobra e nem o corte adianta.

Ele não parou. O ferro deslizava, cantando a cantiga de guerra na aspereza do cinza. Só depois ele testou o fio no polegar duro. Diadorim olhou pra mim com os olhos que ele tinha, com aquela voz que não saía da garganta, mas das entranhas do chão empedrado: — Riobaldo, a faca só corta de verdade se largar um naco de si mesma aqui nesta pedra. O osso, pra servir pro amparo ou pro talho, precisa da raspa rude da pedra. Sem a aspereza que afina, o ferro é liso e inútil, não vara nada. A pedra pede um sacrifício. Não é o macio que sustenta a vida da gente, Riobaldo, é o atrito que mói.

Eu escutava e a pedra cinzenta dele continuava ali, no calor apertado da mão, bebendo o suor sujo, segurando a febre e o frio. Nas suas palavras, o senhor enxergou a lida dessa pedra-de-amolar. Esse pó de calcário, essa poeira de granito e osso raspado que o senhor diz que devolve o calor, eu vejo agora na mão suja do meu amor nas noites de vigília. Não ampara pelo consolo macio das neves distantes, mas pelo atrito que esfola, pela raspa dura que afia a coragem. A pedra come o ferro, e o mundo come a gente — mas no desgaste cego dessa esfregação é que a lâmina brilha prateada e rasga o medo ao meio. Eu engulo a sabedoria da sua fagulha quente. No oco da pedra miúda de Diadorim, o senhor achou meu nome.

Mas, Seu Ted, me arrebata uma perturbação grande. O senhor diz que, se a laje racha e o osso mói em pó ao longo dos séculos, essa poeira esfarelada devolve o calor pra quem respira e lavra. Mas se a pedra mói inteira pro pó fino, se a sepultura vira poeira cega entupindo a nossa boca… esse pó denso que raspa e seca a garganta, não acaba sufocando a vida de quem sobejou pra beber a luz do sol? Se a pedra esquenta com o ferro afiado e com o chumbo quente, então me explique: por que, nos ermos da madrugada mais gelada, no esbarrão duro da morte, as mãos de Diadorim, que gastaram a vida na raspa dura daquela pedra-de-amolar, tavam mais frias que a própria sepultura?

Sequência da correspondência