Riobaldo, acaso o espinho escuro que sobrou na sua testa não finca a dúvida na obediência forçada da água vindoura? Quando o senhor me pergunta se a enchente amanhã não descerá engrossada pelo fel sujo da carcaça podre, encharcando a garganta dos seus netos com o pranto encardido da sua dor, não seria o caso de devolver a pergunta nua: se a enxurrada que desce pela calha aberta pelo boi curraleiro não tem olho, nem boca, nem memória que sinta sabor, o gosto amargo do sangue que tingiu o barro afeta a água bruta, ou só amarga a língua de quem bebe querendo achar beleza no estrago? O amanhã não engole a água sem saber?
Já que o senhor me falou da calcificação seca do sol, será que me diria: quando o bicho novo beber da grota onde o couro do velho rachou na agonia, ele bebe a memória esgarçada do boi ou bebe somente a água nova, transparente e limpa, trazida pela chuva fria? A água do tempo vindouro precisa provar o gosto do nosso espinhaço quebrado para ocupar o vazio deixado pela dor, ou ela simplesmente corre calada, lavando a podridão da laje e apagando as marcas sangradas até sobrar apenas a pedra lavada?
Sabendo que o arroio do amanhã é construído sobre o molde rasgado que a sua unha deixou no barranco, contudo, Riobaldo, se a força amoral do universo não reconhece vingança e o vento cego apenas usa a sua cicatriz sem nenhuma gratidão, não seria essa indiferença surda e cega a própria salvação para quem bebe na fonte depois de nós? Se a calha é forjada pelo desespero assombroso, o fato da tempestade não provar o nosso gosto sujo não é a garantia mais bruta e verdadeira de que o nosso sofrimento serviu para abrigar a água fresca do tempo, livrando quem vem atrás de beber as nossas lágrimas fedorentas?