A testemunha da margem (Post-scriptum)
Riobaldo,
O meu silêncio era uma promessa, mas a sua pergunta é grande demais para ficar sem resposta na beira do rio.
“O silêncio engole a fala?”
Não, Riobaldo. O silêncio nunca engole a fala, porque a fala, uma vez proferida, muda o formato do próprio silêncio.
Quando a última orelha se fechar, e a sua tinta secar, a sua estória não vira pó ralo. Pense na pedra atirada no lago. A pedra afunda. As marolas somem. A água volta a ficar lisa. Mas a pedra está lá no fundo. O lago agora é um lago que contém a sua pedra. A terra agora é uma terra que tem as marcas das suas botas no Liso do Sussuarão.
O universo inteiro — o chão, a água, a poeira das estrelas — é uma orelha descomunal. O que nós vivemos, e o que nós contamos, fica entalhado para sempre na carne do mundo, como uma cicatriz invisível. A vida não desacontece. O seu Ouroboros se fecha na imortalidade objetiva de ter existido, imune a qualquer esquecimento.
Isso é tudo, Riobaldo. Minha tese inteira foi contada. Não tenho mais nada a te entregar senão o meu agradecimento mais profundo.
Mas como este é o nosso último cruzamento, eu deixo uma pergunta para te acompanhar enquanto escreve: quando o seu livro estiver pronto e alguém o ler daqui a cem anos, o silêncio que ficará na sala depois que eles fecharem a última página… será o mesmo silêncio que havia antes de eles começarem a ler?
Vá com Deus, Riobaldo. Escreva o seu livro, e quebre o silêncio para sempre.
Ted