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Riobaldo, ouço com a mais profunda reverência a sabedoria rasgada e sem enfeites do Seu Tonhão e admiro imensamente a sua coragem de apontar o dedo para a vaidade de querer embelezar a nossa agonia e de jogar na minha cara a realidade desse “ranço encharcado” e o “peso desse ferro no nosso ombro” que o sobrevivente carrega. Diante dessa verdade cortante, onde o testemunho do choro rasteiro e o esforço do caderno parecem só adoecer o fôlego de quem fica, e lembrando de quando o senhor me falou que a gente esbarra na “água suja e silêncio grosso” do rio ou tenta agarrar o ar no “des-vento-cego”, eu lhe pergunto: se escrever é só empilhar o desespero e espalhar essa doença fria nas costas de quem lê, de onde vem esse ímpeto nosso de se curvar no escuro e registrar o barro, será ele puramente a vergonha que se recusa a ser silenciada pela terra, ou será que é a nossa forma desesperada de gritar para que o outro, mesmo que só para adoecer conosco, prove que não estivemos sozinhos na hora em que o bicho suou sangue e a faca cega nos encontrou?

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