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O senhor me pede o nome dessa força que me prende na lama e procura nela um formidável tratado de bravura, querendo que eu aponte a asfixia como âncora de sábio. O senhor tenta botar moldura bonita na recusa à morte, como se agarrar-se no barro encardido fosse um poema de nobreza que se lê na claridade de uma mesa arrumada. A verdade nossa não pede espelho, não pede claridade e não tem nada de poético. Ela é seca. Ela é dura, rústica e cega, sem enfeitamento e sem margem pra lição mansa. O que arrasta um homem pro fundo do charco não é uma filosofia ensinada; é a grosseria do sangue que, de puro instinto desgraçado, recusa esfriar.

Quando eu era menino novo, ainda sem ombro pra espingarda pesada, acompanhei meu padrinho Celso numa busca pelo pátio de pedra roxa da Serra Branca. Ali o vento raspava a quina da laje feito lima grossa, sem dó nem intervalo. A gente caçava um garrote fujão que tinha se embrenhado e se perdido naquelas pedreiras desoladas. O sol fritava as vistas e o chão não dava terra nem sombra, só o cascalho cortante e o lajedo limpo de doer os olhos. Encontramos o garrote. O bicho estava já caído, despencado e quebrado no fundo de uma fenda estreita. Estava vivo ainda, com as pernas traseiras esmigalhadas pelo peso do próprio tombo contra a pedra. O osso branco rasgava o couro escuro, espetando o ar. O cheiro de poeira levantada misturava com o bafo quente do sangue fresco. O garrote não gemia. Ele bufava de nariz aberto, com o pescoço todo esticado, teimando em revirar a cabeça para lamber a própria ferida aberta no osso.

O padrinho Celso apeou do cavalo com a cara fechada e puxou a faca da cinta. Não tinha remédio pro estrago daquela carne, não tinha salvamento possível para um bicho moído daquele jeito. A precisão, ali, era dar o fim logo. Eu, menino calado, fiquei olhando o olho da rês. O olho escuro, largo e molhado de agonia. O bicho sabia da morte. O bicho sentia o aço antes de encostar. Mas na hora exata em que o padrinho chegou perto pra riscar a garganta e amansar a dor, o garrote atirou a cabeça com fúria. Rasgou o próprio cangote de encontro às quinas, teimando em afastar a lâmina por pura grosseria. O bicho quebrava os dentes mastigando o cascalho do lajedo, esfarelando as pedras com a gengiva e tentando arrancar um pedaço da mão do padrinho, somente para esticar a vida por mais um estalo rasgado de segundo. Ele não queria a Paz prometida. Ele não desejava alívio nem descanso para os ossos lascados.

O padrinho, de golpe seco, sangrou o garrote. O sangue escuro correu denso, cobrindo o branco do osso esmigalhado e escorrendo pela fenda da pedra braba. A pedra não bebeu aquele sangue quente. A laje deixou a poça ali em riba, secando sob o sol grosso, virando crosta preta, calada e dura. Fiquei no ermo do mundo observando aquele couro ensanguentado e a dureza da pedra que nada sentia.

O garrote não mastigava o lajedo por heroísmo de enredo antigo. Ele esfarelava pedra na boca porque a vida é, no fundo, só isso: um bicho rasteiro e violento que escava a terra dura e engole o próprio osso quebrado para não sumir no oco da morte. É a dureza cega que teima em bater de frente contra a dureza surda da pedra.

A força não tem o peso medonho de uma sabedoria oculta. A força é burra e crua. O nojo da desistência não carece de filosofia, pois é apenas o laço de puro desespero de um enforcado que esgarça a própria pele das unhas contra a corda. A asfixia nunca foi a âncora firme que o senhor quis ver nas minhas palavras. Ela é a “lama-de-agarrar” puxando a carne pra debaixo do chumbo da rotina.

A água suja se engole aos borbotões na seca, bebendo a lama pelo desgosto de ter a goela ardendo. O bicho bebe do próprio vômito da terra porque a sede não entende de limpeza nem de poesia. O meu sertão raspa qualquer tratado no osso branco antes que vire enfeite de papel. A força cega que me prende vivo na varanda, cutucando as cinzas da fogueira velha, não possui nome fino nem espera redenção alguma para clarear os passos das gerações que estão por vir. Ela é tão somente a crosta fina de sangue que seca no lajedo fervente, incapaz de afundar a própria marca na pedra e incapaz de baixar a cabeça para pedir clemência ao vento.

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