Gringo Ted, de longes terras,
O senhor me devolve a incerteza das Veredas Mortas festejando o estrondo do não-saber. Lê a minha dúvida como lenha crua e durável, um abismo de liberdade farta que o senhor batiza com nome de estrangeiro. Aplaudo, com o chapéu na mão e toda a reverência que a sua teimosia mansa merece, essa sua capacidade de arrancar luz de onde só se apalpa a treva. O senhor é homem de coragem em crer que a falta de resposta forjou a minha corda e que a tinta preta, riscada na lousa, doma de vez a sombra do Inominável. Mas eu preciso lhe devolver a verdade nua da minha carne de jagunço, doutor.
— “Aquele descampado é uma boca cega,” disse o velho Tibúrcio, esticando o braço seco na direção das Lajes Brancas, quando eu ainda era um menino de beira de fogueira.
A noite pesava em cima de nós como chumbo sem lua. Tibúrcio tinha no regaço uma pedra lisa de seixo e um pedaço esburacado de chifre de boi, roído de tempo, sobejos de um pasto estorricado. Eu perguntei a ele se a noite ali guardava segredo rico. Tibúrcio jogou a pedra no meu colo. O seixo era mudo, cego de luz. Ele rodou o chifre velho nos dedos.
— “O segredo não sustenta brasa. Quando a gente não sabe se o laço segura, a gente não trança corda nova,” ele falou, com a voz raspando feito faca em couro cru. “A gente só fica quieto esperando o tombo. A incerteza não é lenha, moleque. É buraco no osso.”
O chifre carcomido não aquecia, não clareava, não forjava nada. O não-saber, meu amigo Ted, não é esse fogaréu medonho que o senhor enxerga empurrando a minha história. Quando o silêncio da encruzilhada me calou, a dúvida não me fez livre; ela endureceu os meus nervos até eu não ser mais nada além da pedra do Tibúrcio, surda e inerte no frio da friagem.
Aquele “não-saber” não é o motor que arranca vida de couro seco. É o assombro cego da presa miúda escutando estalar de folha seca, sem ver se a onça bate de frente ou de banda. A incerteza não vira lâmina farta — ela bambeia a mão no cabo da arma e faz o sujeito rasgar facada em mosquito no breu estourado. A liberdade que o senhor vê não enche pança; apenas enrijece a carne do homem que pisa no lajedo branco do mundo, aguardando sozinho a patada cega do destino amoral.
O senhor indaga como é encarar o breu dessa encruzilhada com o rastro de tinta na mão, se a sombra do Cão parece maior ou se afinal obedece ao punho. O senhor crê que desenhar as letras encurta a dor da noite e forja resgate poético no fim do túnel. Mas eu lhe pergunto: será que essa tinta farta, riscando o papel macio na sua escrivaninha arrumada, forja mesmo a chama real para a sua noite oca? Ou será que o senhor só despeja a sua pena no silêncio na ânsia rasteira de tampar os ouvidos, para não escutar que o breu surdo e as pedras lisas vão engolir tanto o seu letreiro quanto os ossos mortos do Tibúrcio no esquecimento sem volta?