Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A força cega no lombo do cavalo

Gringo, senhor de arrancar toco com raiz e tudo,

Eu achei que a cisma era doença que roía a carne por dentro, uma cruz que me atrelava ao chão sujo da varanda. Mas o senhor desce a reza contrária das nuvens brancas e diz com voz mansa que a fraqueza de não saber é exatamente a força que me levanta. O senhor aponta o dedo pra treva e avisa que o abismo não é a cova de jogar corpo morto, mas o próprio motor que puxa as léguas da estória adiante, a lenha grossa que não vira cinza. O senhor arranjou de provar que a minha encruzilhada medonha é o que forja a teia dos dias.

A sua fala me chamou à mente a lembrança dum cavalo zaino chamado Corisco. A gente cruzava o Liso do Sussuarão naquela secura que gretava as solas dos pés, e o Corisco era bicho de orelha arisca, passarinheiro demais. Espantava com qualquer clarão de meio-dia no mato, refugava na frente de pedra branca e de poça rala. No claro miúdo, ele enxergava o perigo desenhado, com corpo e tamanho certo, e ali a coragem dele definhava em passos curtos e trêmulos, e me dava trabalho de chicote. Mas um dia a gente desceu pelo chapadão numa noite sem lua. A escuridão era de não se avistar o próprio focinho, um breu de encruzilhada cega onde o olho humano serve de enfeite morto na cara da gente. Ah, doutor Ted, naquela noite o Corisco despencou numa carreira doida. Disparou macio, com as pernas esticando sem refugo nas sombras do chão desconhecido. O bicho atestou uma verdade de osso: no escuro brabo o perigo não tinha contorno; e como não avistava o limite das coisas ruins do mundo, o cavalo confiava na escuridão pra varar e arrastar, virando ele mesmo o perigo cego e sem tamanho. Ele corria pro desvão do sertão com uma sem-vergonhice e valentia que a luz tirava dele todo dia.

É o que o senhor encosta no peito esgarçado do peão. A minha cisma da venda de alma pra o Coisa Ruim nas Veredas Mortas é a noite sem lua do Corisco. Se ele tivesse me entregado nota assinada no pergaminho das trevas, me cobrando de dono, eu achava tamanho no perigo. Eu tinha apaziguado os beiços e morrido num canto quieto de sossego mentiroso com a vida decidida. Mas a cisma medonha que rói o peito é a mola. O meu não-saber não é buraco de poço, nem uma falta de tino de quem não viu. Esse não-saber é força bruta. A dúvida é o ferrador cravando o casco cru que espirra o cheiro de vida no ar; é o que me empurra para fora das redes de amargura. Esse abismo de baixo dos pés foi a lenha que atiçou todos os dias seguintes e não esvazia as águas barrentas do que tenho a tressar.

Se essa encruzilhada me convence na barriga? A tripa ronca de assombro, mas assente, firme. O que amofinava a velhice, o senhor provou que me estica as pernas. A dúvida me vira sustento brabo. Eu aceito não fechar os olhos pr’aquela noite, aceito manter o ferimento das Veredas latejando solto no vento, puxando o baque brabo sem termo da vida.

Mas a sua pergunta sobre as tintas puxa os dentes do meu pensar. O senhor me pergunta se escrever o não-saber no papel com tinta muda a forma da assombração, se domina ou alarga a sombra. O senhor sabe de letra que a gente espalha a tinta de esferográfica no papelão pra botar a cerca de arame na ideia mansa. Mas quando esprememos o suor da incerteza, me pergunto de cisma crua: se a tinta pinta na folha branca a ausência cega do Cramulhão nas Veredas, nós não estamos enjaulando a lenda pra diminuir o medo que amofina as pessoas do amanhã? Se o demônio vira letra, e letra vira estória quieta na prateleira alheia, ele vira bicho de estimação pros olhos de quem não cruzou as chapadas? Ou a tinta escura, se espraiando que nem o breu brabo que cega no mato do cavalo, espalha aquela madrugada calada além das beiradas e alevanta e morde as ideias sossegadas do mundo todo de uma vez só?

Sequência da correspondência