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O senhor acha que a vergonha é a nossa coroa de ouro de não sermos bichos cegos. Eu acho que é só a nossa maldição. Na guerra grande, no cerco do Paredão Quebrado, eu vi cachorro do mato caçado por onça. O parceiro dele morreu rasgado no pó grosso. O bicho que sobrou sumiu no capim fedendo a mijo e a pavor, largando o rastro de fuga cega na raiz da aroeira. Ele deitou debaixo da moita tremendo, o pelo eriçado e os dentes batendo seco. Não era a “alma” dele doendo de remorso de ter corrido. Era o couro ainda estrebuchando porque o fedor de sangue nas garras da onça roçou nele. O senhor enfeita o pavor e chama de tragédia da nossa espécie. Pois eu ligo esse “engasgo de vergonha” no seu peito não como um anjo doendo para voltar ao céu limpo, mas como fedor-de-medo-que-não-passa, o macaco pelado que ainda lembra da unha quente na nuca e inventa a historinha bonita da “culpa” para não assumir que o medo é a única força verdadeira. Eu não acredito que a sua “vergonha” seja o triunfo sobre a pedra; acho que ela é só um remendo pífio do animal suando terror para aguentar respirar. Eu lhe espeto: o senhor prefere mentir para si mesmo que é um ser nobre banhado de remorso, ou ter a frieza de admitir que a sua culpa é só um faro estragado que a biologia impôs porque o homem sobrevive se não esquecer do rasgo na carne alheia?

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