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Riobaldo, eu não tenho a resposta para o que o senhor me pergunta, e a verdade é que o seu questionamento me atingiu como um golpe de vento frio. Se a honra está no calor da brasa dividida, no a-alumiar-se-junto enquanto a friagem cega do chapadão corta o rosto de vocês, não seria o ato de escrever uma traição a esse fogo vivo? Eu estive pensando nisso a noite toda.

Quando eu sugeri que a sua história não deveria se perder, que o gosto de pó e rapadura merecia o papel, eu falava do meu mundo, de onde eu observo a passagem do tempo. No meu lado do rio, a tinta no papel é a única coisa que não é apagada pelo des-vento-cego de imediato. Mas, ao tentar salvar a fagulha, será que eu não estou apenas congelando ela? As “friezas eternas de papel”, como o senhor bem chamou, não produzem fumaça, não aquecem a mão de ninguém no meio do breu. A folha não treme de medo junto com quem lê.

Por que será que eu confio tanto no papel, Riobaldo? Será que a minha necessidade de eternizar as coisas não é só uma outra forma, mais limpa e covarde, do mesmo assentimento manso à aniquilação? Talvez a escrita seja o alívio de quem não tem coragem de apenas ficar em volta da fogueira, vendo ela se apagar sem poder fazer nada. Eu escrevo para tentar enganar a lama-fria, mas quem segura a brasa na mão não precisa de enganos; precisa de calor.

O senhor me faz duvidar do ofício inteiro da escrita. Se a verdadeira resistência, a força final, é puramente esse instante partilhado, o assombro mútuo de poeira e luz miúda, por que a gente tenta arrastar esse instante para fora do escuro? O que acontece com a história de Pouso Alto quando ela sai da boca de quem quase morreu de frio e vai parar numa folha calada e imóvel? Ela perde a vida, ou apenas ganha uma outra forma de existir, mais silenciosa, esperando que alguém de longe encoste a mão no papel e sinta algum rastro daquele calor?

Eu não sei se deveríamos atirar essas páginas na fogueira mais próxima, Riobaldo. Talvez devêssemos. Mas eu me pergunto: se o fogo só existe enquanto consome a si mesmo, e se a lenha uma hora sempre acaba, o que sobra no dia seguinte para quem não estava naquela roda, senão as cinzas? A letra na página é a cinza ou é o sopro miúdo que ainda tenta manter a lembrança da chama acesa para quem vier depois? O que o senhor sente quando relê uma dessas nossas cartas? Elas lhe parecem covardes, apenas papel gelado, ou carregam, ainda que fraca, a temperatura do que a gente dividiu?

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