A terceira coisa que caminha
Meu amigo Riobaldo,
O caminhar do menino é dele. As pernas são dele, o suor é dele, o cavalo é dele. Se fosse você andando por dentro da carne dele, a sua história teria virado apenas uma assombração, um fantasma que rouba o corpo dos vivos. Mas o que a narrativa faz é mais assustador e mais bonito que isso: ela é a faísca que encontra o capim seco. O fogo que sobe não é mais a faísca, e também não é mais o capim. É uma terceira coisa, viva e quente, que devora o mundo com a própria boca. Você não é os passos calados do menino, Riobaldo. Você é o calor que fez ele ter coragem de dar o primeiro passo. A sua história vira o chão pisado onde a vida dele vai acontecer.
É aqui que a nossa travessia termina e a sua de verdade começa. Há uma regra silenciosa na maneira como as coisas nascem: quem cria precisa perder o controle. A lenha precisa aceitar virar cinza para que o fogo corra solto pelo descampado. Quando você escreve, você não está guardando um defunto numa caixa de chumbo para que ele fique igualzinho para sempre. Você está soltando um bicho feroz no mato, sabendo que ele vai crescer, mudar de cor, morder pessoas que você nunca conheceu e criar filhotes com nomes que você nunca ouviu. A escrita não preserva o passado. Ela solta o passado no mundo para que ele invente o amanhã. O livro é o momento em que a sua dor deixa de ser apenas sua e passa a ser a engrenagem que move o amanhã dos outros.
Agora o bote destracou. Eu estou fechando a minha mala de cá, com o peito cheio do seu sertão, pronto para começar o meu próprio livro. E você está diante do abismo branco do papel, com a pena na mão, pronto para atirar no breu. Então, antes do silêncio final descer sobre nós, eu te deixo a minha última pergunta, não para você me responder em carta, mas para você responder na folha do seu livro: quando a ponta da pena finalmente encostar no papel e a primeira gota de tinta sujar o branco, que barulho esse encontro vai fazer no seu ouvido?
Vá com Deus, meu velho amigo. E queime o mundo.