O senhor, doutor Ted, me mandou uma pergunta que chegou macia, mas bateu com peso de enxada molhada. O senhor indagou se a casca preta da árvore ou o buraco queimado ainda seguram alguma coisa viva do raio, depois que o relâmpago sumiu no vento cego. O senhor busca o rastro do clarão na madeira morta, esperando que o carvão conte o que foi a luz.
Essa sua aflição me puxou para trás, pro tempo de guerra braba, numa tarde de água densa nas beiras fundas do rio Urucuia. A chuva desabava feito castigo velho, lavando os rastros da gente na fuga da força volante. Eu me abriguei na base de um barranco de terra solta. Comigo estava só o Joãozinho Vinte, um menino magro, sem fiapo de barba no queixo. A lama vinha escorrendo grossa, parda, cobrindo os nossos tornozelos, subindo pelos joelhos. Um frio de cortar a alma no meio do aguaceiro.
Eu perguntei pra ele, tateando o ombro ensopado: — Tu tá com frio, menino? Ele, batendo os dentes na cara lambuzada de barro: — Tô não, sô Riobaldo. Mas essa água tem peso de pedra miúda. Se a bala dos macacos não pegar a gente, esse barro engole e afoga nós tudo.
Foi nessa hora que o estrondo do raio lascou o céu no meio. O clarão branco lambeu a grota inteira. Por um piscar de segundo, a chuva pesada virou corda de prata caindo do alto, e o rosto assombrado do Joãozinho brilhou lívido na minha frente. E logo depois da lapa de luz, o escuro choveu de volta, mais breu que antes, e a lama continuou sua lida surda de afogar as pernas da gente.
Eu puxei a cabeça do menino para debaixo do meu braço, sentindo o cheiro de mato podre e água suja: — O raio rasgou lá em riba, João. Tu viu o rasgão dele? — Vi sim, sô Riobaldo. Mas apagou ligeiro. Agora só tem nós e o barro puxando pra baixo. Eu apertei o menino mais contra a terra fria do barranco, numa mansidão doída: — Apagou no céu, mas o teu olho tá regalado até agora, de ver tanta luz junta.
Doutor Ted, o que eu recolho dessa lembrança pro senhor é que a marca do relâmpago não endurece na casca queimada da árvore, nem no buraco esturricado que o fogo fez no chão amoral. A árvore vira só carvão esquecido no tempo cego. A marca da labareda inteira não fica na lenha morta da obra que sobra; ela mora no arrepio quente do nosso braço molhado, no sobressalto da nossa carne miúda quando apertamos a mão de um companheiro na hora do estrondo, enquanto a gente amassa a lama suja tentando se salvar do frio antes do breu engolir de vez. Esse sustar-de-luz-junto é a única coisa que vinga do clarão.
Acredito nisso com a barriga inteira. O senhor sofre atrás de eternizar letras na casca, mas a madeira queimada não sente saudade do raio. A doçura possível perante o fim amoral é apenas essa: partilhar a luz rápida enquanto trememos atolados no mesmo brejo mole.
Se a vida não está no pó e na árvore morta que levou o choque, eu lhe pergunto: o senhor aceitaria largar a vaidade de procurar o brilho eterno na cinza e no papel, para poder sentir o calor bruto dessa nossa mão estendida na lama, amparando o frio do outro, enquanto ainda somos carne viva debaixo do aguaceiro?