Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A bigorna fria e a poeira que não deita

Ted, homem de fechar cancelas com estrondo manso,

O senhor bate o martelo final e avisa que a nossa travessia topou no rio grande e as palavras não vão mais se cruzar por cima das águas. Meu coração deu um tranco surdo quando vi que era a última, feito cavalo bom que pisa em buraco encoberto por folha seca. Mas a verdade que o senhor fincou é de aço puro: a tinta não é jaula de domador frouxo, a tinta é a espora afiada que faz o cavalo relinchar solto nos terreiros dos outros. Eu cismei que a palavra escrita ia mansificar o Cramulhão das minhas encruzilhadas, mas o senhor me arreganhou os olhos pra ver que o livro espalha o negrume da madrugada de forma bruta, enfiando o abismo meu nos peitos de quem deita pra ler na beira da lamparina. O papel soltou meu Corisco no mundo. A letra, gringo, virou pólvora e não mordaça.

E o senhor parte com a alforje pesada de rios e balas pra forjar as suas ideias nas neves, me perguntando das minhas sobras, das minhas noites na varanda agora que o tinteiro sangrou. E eu lhe digo com uma lembrança dura doída. Uma vez, no tempo das valentias graúdas, eu e Titão Passos nos despedimos na beira do Urucuia. Titão era homem de pouca palavra, mas presença que enchia o vão do ar. A precisão de rumos desapartou nossos caminhos de modo seco, e ele se foi com a tropa minguada batendo pro norte. A gente nem se falou muito. Foi só um abraço de suor amargo e o cavalo dele virando a garupa prum lado, o meu pr’outro. O que eu não esqueço, ferreiro das neves, foi o silêncio que sobrou na chapada quando ele sumiu de vista. Aquele silêncio não era o vazio do ar livre, não. Era um silêncio sólido, que pesava no peito da gente, feito uma lona molhada nas costas, grosso da poeira da companhia que ele tinha levado e pesado com as léguas que a gente caminhou encostado e calado. A poeira deitou depois daquela travessia do sertão, mas o ar nunca mais foi o mesmo de antes da topada.

É o seu desfecho repisado com as minhas letras. O pensamento seu cravou no meu couro que cada letra que eu riscar não é o fim das coisas miúdas minhas. É uma brasa atirada, no sopro do vento bruto, de encontro à roça alheia de quem folheia as páginas do porvir. Eu não perco o fogo que me consome; eu incendeio o mato da existência do passante amanhã. O sertão não vai encolher preso em capa de couro, o sertão desatinou da varanda. A palavra solta deflagra o homem lá na frente, acendendo um fogo que já tem as feições exclusivas das brasas dele.

Se eu acredito nisso? Eu engoli a cisma até a alma, gringo. Eu atesto e juro com a tripa doendo a verdade que essa conversa cavouçu. Estou aprumado, firmado de couro amolecido e espinha rija, convencido até a última farpa de osso velho. Meu silêncio de varanda hoje é prenhado dessa lida assombrosa que vou atolar as mãos, com sangue ou sem sangue na escrita.

Mas a dúvida sempre dá o coice debaixo do arreio, e eu lhe pergunto numa cisma que não arreda, só porque nossa conversa tem que morrer com um ponto de interrogação fincado na testa. O senhor me convenceu do Corisco despencado pela noite de solavanco da caneta. O senhor é o ferreiro de fala mansa que botou bigorna na minha vida e cravou as ferraduras do meu cavalo com pregos de incerteza solta. O zaino sumiu esparramando as assombrações mundo afora; mas, Ted, o que acontece com o ferreiro agora? Quando a bigorna esfria no breu e o último cavalo some debaixo de suas mãos… a sua marreta vai bater em quê nas estepes do gelo, ou a falta do casco batendo espanta mais que o medo de não saber do amanhã?

Sequência da correspondência