Ted Chiang, meu senhor distante, hoje as suas palavras não voaram por cima do telhado nem rodaram na ponta da língua. Elas caíram inteiras, grossas, batendo soltas no assoalho, desamparadas como chumbo frio em cuia de barro. O senhor, enfim, não me ofereceu cobertor de letra nem fogueira de promessa. O senhor perguntou do escuro. Pela primeira vez o senhor desceu do salto da esperança de um futuro macio e sentou no cascalho para me perguntar, da beira do lodo asfixiante, se a nossa amizade na argila sufocante faz ensurdecer o horror liso do nada ou se apenas adia a quebra fina dos nossos dentes velhos na ardósia crua da morte. E diante desse seu terror, cru e nu, eu só posso abrir um espaço respeitoso e confessar ao senhor o meu silêncio de profunda reverência. O senhor teve coragem de ver o abismo sem tentar desenhar ponte enfeitada por cima dele. O senhor perguntou de verdade.
Estou sentado na minha varanda, agorinha mesmo. O dia hoje é seco, de estalar sabugo de milho no meio do descampado. O que tem de mais solto no mundo, seu Ted, é a poeira que o vento empurra no sertão rasgado. O vento cego desce chiando das grotas e levanta colunas de terra suja, cobrindo o sol vermelho, batendo no meu rosto enrugado. A poeira entra no nariz e tem cheiro de coisa que já viveu, gosto de casca velha, de cinza morta de mato queimado. O vento assobia nas frestas do telhado num zunido constante que é pior que o grito, porque o grito tem dono e acaba, mas o vento varre a laje do mundo parecendo que não tem começo nem fim. Ele joga os ciscos na cara do sujeito pra lembrar que tudo, amanhã ou num amanhã mais longe, também vai virar pó carregado na lufada grossa e burra, sem deixar marca, sem deixar promessa nenhuma. É o vento que ensurdece e cobre o nome dos defuntos que as cruzes de pau tentaram guardar no chão rachado. Eu assisto a esse poeiral todo subir, cego e sujo, engolindo os mourões da cerca e a beirada do curral.
O senhor me pergunta se, no fundo da cova, quando a gente raspa osso no osso numa sanfona do morto, o ruído disso é só desespero fingindo que faz melodia. Seu Ted, eu vou lhe dizer com a paciência que o vento seco me cobra hoje: nunca é para fingir que a laje é mole. Não há melodia na pedra. A pedra não ensurdece. O vento não cede compaixão e o horror liso do nada tá ali, calado e paciente de braços cruzados esperando a vez dele de lamber os restos. Quando o homem, amarrado na asfixia feia do breu, tritura o cascalho no osso, ele não faz isso pra apagar o buraco; ele faz isso pra provar que ainda não foi engolido. A teimosia da gente no lodo sufocante não cura a morte. Ela não amansa a mordida que vai virar o dente em caco na ardósia escurecida. Mas ela recusa a rendição muda. O senhor pergunta se a gente só adia o susto. Pois eu respondo, com o respeito maior do mundo diante da sua pergunta sofrida: e o que mais a vida inteira faz senão adiar o fim abraçando o susto com a mão que sobrou? A recusa de ceder em silêncio cego já é toda a força que o sujeito precisa pra provar que existiu. A presença do companheiro sujo no atoleiro não empurra o buraco pra trás, mas divide o peso frio do chumbo na hora da queda, de forma que o horror continua inteiro, mas o sujeito fica pela metade menos assombrado por não ranger seus maxilares sozinho no mudo infinito.
E eu, de olhar fixo na poeira batendo grossa na madeira da cerca e na cal do reboco, digo que acredito piamente nisso, com a barriga encolhida e o osso cansado. Adiar o abismo junto a um homem de respeito, ranger de dentes no mesmo pátio de pedra roxa, sabendo com os olhos duros que o chão vai rachar as canelas de todo mundo, não é fraqueza e não é fingimento envergonhado. É a coragem mais teimosa e limpa de quem encara o rasgão do vento sem abaixar as pálpebras em desespero cego.
E, assim em reverência no meio desse barro voando nas rajadas da seca bruta, o vento calado na minha garganta me força a devolver uma pergunta de peso exato. Agora que o senhor reconheceu de peito nu que o cascalho cru não esconde promessas amanhã, o senhor tem estômago e fibra para continuar arranhando a laje estéril comigo até o dente lascar, ou a saudade das cobertas redentoras do amanhã logo fará falta ao seu suor no lodo do hoje?