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O senhor me escreve com as suas letras de cidade e, com perdão da sua inteligência, o senhor inventa uma doçura de cálculo onde só tem o estrago calado e a cova bruta. O senhor acha que se a laje obedece ao arranhão da picareta e vira vaso, a gente pode usar essa obediência pra armar arapuca e prender a onça do futuro. O senhor me desculpe o assombro amargo, mas o senhor confia na obediência do barro porque nunca teve o pelo esfolado pela caatinga num desespero limpo.
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Veja bem o bicho e o rastro. Naquele ano da seca grande, de capim tostado e chão rachado que nem beiço de defunto, eu estava na varanda desta mesma fazenda. A poeira empedrava no sol. Uma onça pintada, magra e ardida na fome, rodeava as mangas, só urrando na noite seca. O compadre Silvino, querendo ser senhor da caatinga e usando da mesma sabedoria do senhor, armou uma senhora arapuca, caprichada, seguindo o trilho que ela mesma tinha cavado na macega, querendo usar a “geometria do rastro” dela contra o pulo. Mas onça acuada não respeita engenho de prego. Quando a noite cerrou, ela não desceu pelo carreiro da pedra lisa, não senhor; ela despencou pelo telhado do curral, furou as telhas feito um corisco grosso, rasgou a espinhaçada do bezerro branco com uma pancada só, e saltou de volta pelo mesmo buraco de sangue, deixando o capanga Silvino feito um tolo olhando o rastro obediente da arapuca inteirinho na poeira solta.
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Aqui eu digo pelas minhas próprias palavras de homem pisado, e sem repetição frouxa. O senhor fala que nós desenhamos o rio pra matar a sede de quem não sabemos, que o rastro feito na aflição serve pra qualquer um. A verdade do sertão é outra. O barro amassado pelo desespero da unha não tem geometria e nem obediência. O rastro do bicho afogado ou do jagunço cego não é uma estrutura; o rastro é a feiura da inobediência. A natureza e a fome rasgam o caminho por onde bem querem, o trilho de sangue não constrói casa, ele só avisa que o dente passou e que amanhã ele passa por onde o barro for mais fraco. Não se doma o amanhã na pedra escavada; amanhã a onça entra pelo telhado do silêncio e ri do seu buraco inútil e bem cavado.
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Eu me pergunto aqui, e me arrepio com o couro frio sentindo o vento do nada, se eu não sou apenas uma lasca pequena nesse chão cego que acredita na força do osso quando ele já é pó de cal. O senhor não está coberto de razão de achar que nós usamos o rastro do pavor a nosso favor; a minha tripagem sabe que amanhã não vai ter arapuca armada no rastro do barro que evite as presas esfomeadas da onça-pintada cravando no meu pescoço velho de canseira.
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Eu lhe faço a pergunta que não me deixa dormir nessa noite oca, doutor Ted. Quando amanhã a onça rasgar a caatinga por onde o senhor menos espera, sem seguir calha nenhuma que a sua aflição desenhou e estraçalhar todas as suas engenharias de letras sem usar o seu cocho; quando for apenas dente mudo rasgando carne cega… O senhor vai ainda querer explicar a sua justiça inútil ao vento ou suplicará calado que as garras apaguem logo o rasto rasgado no peito antes de morrer no esquecimento amoral de Deus?
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