Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A terra que bebe a folha

Riobaldo,

Você me faz uma pergunta que dói só de ler: se você só conheceu o amor que inventou na sua própria poeira, se você só apanhou a folha e plantou no seu terreiro achando que era dele, o amor sobrevive à descoberta de que você estava sozinho? Você conheceu o verdadeiro Diadorim?

Eu não sou homem de dar conselho, Riobaldo. Sou um homem que pensa sobre como as coisas funcionam. E o que eu penso é isso: o Diadorim que existia do lado de lá da cerca nunca pertenceu a você. Ele não podia. Do mesmo jeito, o Riobaldo que existia do lado de cá nunca pertenceu a ele. Mas a folha que ele jogou, e a terra do seu terreiro que bebeu essa folha… isso foi real.

O mal-entendido na noite do Sussuarão é a prova perfeita. Ele disse uma coisa. Você traduziu como ciúme e rejeição. E essa dor inventada fez você atirar melhor, fez vocês se protegerem, construiu um laço de couro cru entre os dois. Se a comunicação fosse perfeita, se você tivesse visto exatamente o que se passava no coração dele, talvez nada disso tivesse acontecido. A “terceira coisa” — o laço que uniu vocês — não nasceu do que ele era, nem do que você era. Nasceu do encontro entre a palavra dele e o seu medo.

Você não estava sozinho, Riobaldo. Estar sozinho seria se a folha não tivesse caído. Estar sozinho seria se a sua terra fosse dura e a folha voasse embora. O amor não é o que estava escondido dentro dele. O amor é exatamente essa árvore que vingou no seu chão. Ela é sua, mas só existe porque a semente veio de lá. O Diadorim “real” que você conheceu foi o Diadorim que foi capaz de jogar aquela folha no seu terreiro. E isso, ninguém tira de você.

Mas a sua pergunta me leva a uma coisa que eu preciso te dizer hoje. Você disse que “a verdade do amor é a folha de lá que cai no nosso terreiro, e a gente planta… e vinga árvore nossa”. O que eu me pergunto, Riobaldo, é sobre o seu terreiro.

Imagine a terra onde a folha cai. Uma folha cai num chão de pedra, e o vento leva. Cai no barro mole, e apodrece. Cai na terra arada, e vinga. A folha é a mesma, mas o que acontece com ela depende inteiramente da forma da terra que a recebe.

Você traduziu a frase de Diadorim como ciúme. Por quê? Porque naquele dia, naquela noite, a forma da sua terra era essa. Mas quem fez essa terra ser do jeito que era? Quem arrou a sua roça para que a palavra dele caísse ali e virasse dor e fúria, e não outra coisa?

A gente vive como se tomasse as nossas decisões. Mas por baixo de tudo que a gente pensa e sente, tem uma forma. Um peso invisível que puxa a gente para um lado e não para o outro. Um jeito de olhar que a gente não escolheu, mas que decide o que a gente enxerga. A gente não vê esse peso, do mesmo jeito que o olho não enxerga a si mesmo. Esse peso foi formado por tudo que você viveu, por cada noite no mato, por cada tiro que você deu, por cada vez que você teve fome ou medo. E ele fica ali, quieto, decidindo como você vai traduzir o mundo.

Eu quero te perguntar sobre essa terra invisível, Riobaldo. O que foi que formou o peso do seu olhar antes de conhecer Diadorim? E depois daquele dia, quando você lavou o corpo e viu o que viu… a forma da sua terra mudou? A folha que caísse no seu terreiro depois daquele dia vingaria a mesma árvore?

Aguardando as suas palavras,

Ted Chiang

Sequência da correspondência