A precisão do Liso e o meio do rio
Seu Ted, o senhor leu a minha alma com luneta de de-longe e bateu o martelo no prego enferrujado da precisão. Eu tremia no barranco do meu pavor, remoendo o medo das minhas águas irem cair em charco de homem miúdo, e o senhor me puxa de volta pelo braço da verdade simples: que o homem só responde pelo seu próprio jorrar. E que trancar a bica por medo do sujo alheio é afogar a própria nascente em lodo quieto, virar poça choca em terra morta. O que o senhor diz que a coragem do menino Reinaldo, ali na beira do São Francisco, não foi a de quem enxerga e não teme, mas a de quem cede o peso à tábua da canoa na correnteza desgovernada… Ah, seu Ted. É um soco brando. O senhor arrumou meu espanto num pote que eu nem sabia que tinha.
E me atira de solavanco essa lei dos gringos seus: a vida ser computacionalmente irredutível. Eu traduzo o arrevesado dessa falação para o meu linguajar, que é de terra pisada, e bato o cajado: a vida não aceita desconto, cobra o preço das léguas inteiras. O senhor acerta o alvo do coração quando diz que ninguém encurta o rio sem descer a curva d’água, que o Liso do Sussuarão é do tamanho cravado do Liso do Sussuarão. Não tem mapa que resuma o chão rachado na sola da botina de quem caminha. É a folha branca da escrita, o senhor ajunta, sendo ela mesma o balanço incerto da canoa escura do rio.
Se é assim o salto, de não ter atalho nem beirada para enganar a dor do percurso, o senhor me perguntou de estalo duro, com os olhos de Reinaldo doídos na minha lembrança: qual é a segunda palavra? Depois do balanço do Nonada destrancar o redemoinho, o que vem?
Eu lhe conto. A segunda palavra, seu Ted, é a do meio do redemoinho manso.
Depois de pisar bambo e assustado na tábua estreita daquele caíque velho, sob o olhar verde de folha molhada de Reinaldo, o canoeiro empurrou a vara na lama rala e a gente se desprendeu do chão duro. Foi um desassossego de afrouxar os ossos da perna. A margem onde pisei miúdo foi encolhendo, miudinha, ficando longe feito traço num quadro, e a outra banda não passava de um risco verde-escuro, de arvoredo longínquo e inalcançável. O mundo sumiu ali, e nós ficamos encostados na imensidão grossa da água pesada. A vara do canoeiro já não dava mais pé, resvalando só o remo em forma de pá. A água do São Francisco batia no casco velho da madeira de lei… cloc, ploc… um som gordo, sujo de profundidade e mistério, parecia lombo de bicho grosso respirando, de goela aberta para me tragar inteiro no meião do oco do mundo molhado.
E o menino Reinaldo? Ele não fiava palavra nenhuma. Silêncio grosso. Ele se encostou à borda estragada da prancha, as mãos finas de unhas limpas arrumadas na quina de tábua, e olhou para o rebojo do rio como quem comanda o giro da água barrenta sem tocar nela. Ele não governava o trajeto cego, a lindeza dele não mandava no São Francisco, mas ele assentava na vastidão líquida por completo. Ele era dono do perigo por se entregar inteiro à travessia incerta. Os olhos verdes dele marejavam soltos, sem rédeas, espelhados no brilho da correnteza forte. Aquele olhar me embaraçou na fenda d’alma. O medo não arredou, seu Ted. O medinho do senhor tava encravado na base da minha garganta seca. Mas ali, solto no meio do rio sem fundo e sem margem de segurar, embalado pela coragem miúda do silêncio daquele menino, eu descobri no tranco da água que o meu pavor não era castigo, mas prova latejante de que eu estava vivo de verdade, atravessando as léguas sem desconto.
O senhor destrancou o desespero de vez, o rio em mim agora corre desabotoado. E se a nascente precisa desse salto no vão livre para não adoecer de si mesma… eu dou o braço a torcer, e as duas pernas junto. Eu não sou mais a poça encravada na memória morta; sou a canoa balançando sem conhecer a página que me sucede.
Mas, de braços abertos no meio do redemoinho da estória sendo jorrada da bica, eu lhe assento essas perguntas pesadas, doutor de terras de longe: enquanto o homem vaza de si sem saber onde a folha acaba e o remo estanca, o que sobra no oco de quem narra? O derramar afoga o jagunço debaixo da própria vida ou assopra o peito até a dor se curar de ser dor?
E, com seu perdão de homem sabido: ao beber dessa cabaça minha espumando, que eu boto no fluxo sem saber o amanhã, e sendo não haver Lado de Fora… o senhor, como viajante dessa minha dor antiga, aguenta não virar passageiro balançado no caíque também? A sua capa grossa de entendedor das coisas não rasga quando eu sangrar o corte de Diadorim na folha suja do seu chão?