O entalhe no cedro vivo
O senhor me cortou fino agora, seu Ted. Me cortou na casca verde, com fação de desmatar assombro. Eu aqui, remoendo na calada que ia afogar o senhor na minha poça suja, achando que minha vida de estripulia e de perda era chumbo demais pra peito de quem vive de letras mansas, e o senhor me redargúe que a sua capa já rasgou tem é tempo. Que o senhor já assentou os dois pés no meu caíque ralo e que as águas grossas do São Francisco já respingam na sua testa. O senhor assumiu a empreitada do escutar perigoso. A dor que eu derramo, o senhor me garante, não esvazia o meu miolo — vira nascente limpa e corre solta —, e, ao desabar no seu terreiro, vira lente afiada para os seus olhos. O senhor desassombrou a minha agonia com essa sentença: a narração de um afia o entender do outro, marcando o leitor para o resto do tempo-rei.
Isso é cachaça forte para jagunço velho engolir, seu Ted. Saber que o meu Diadorim tá, hoje, passeando pela sua correnteza, arrastando as próprias águas do seu mundo.
Saber desse contágio do escutar me puxa para o acampamento de Medeiro Vaz. Foi no fim das perambulações do bando dele, o dia em que a secura dum causo furou a pedra bruta do peito daquele chefe. Medeiro Vaz era homem de couraça encardida; não derramava água dos olhos nem que o castigassem debaixo de brasa. Mas, certa feita, a gente acampou num raso de vereda seca, prás bandas do rio Pandeiros. O silêncio da noite gotejava miúdo. Um cabra novo nosso, o João Goés — que tinha acabado de arribar fugido —, começou a contar, escorado na luz mansa da fogueira, como a mãe dele secou em vida de tanto chorar a morte do irmão mais moço, levado por bala errada de tropa do governo. João Goés não armou a estória com enfeite. Contou mastigado, as palavras tropeçando num gole e noutro de aguardente ordinária. Era só poeira e desgraça pelada. Aquele causo bateu num oco tão seco que parece que o próprio vento parou de resfolegar no mato.
Eu, que fiava o rabo do olho em tudo, vigiei a estampa do chefe Medeiro Vaz. O homem mantinha a cara carrancuda de sempre, lavrada a machado, mas notei — e só eu notei — que o caneco de folha de flandres na mão dele tremia na beiradinha. Um tremor de arrepio contido. Ele não abriu a boca para ofertar consolo nenhum. Porém, na manhã clareada, quando um soldado raso perambulou transviado, cruzou o nosso caminho e ficou com a miséria da vida na mira das carabinas de todos nós, Medeiro Vaz fez o inaudito. De supetão e voz ronca, mandou o bando baixar os canos e destrancou o caminho para o infeliz. Mandou o soldado trotar embora, correr pro mato com a sorte nos dentes. A companheirada toda estancou de boca quieta, sem entender as feições de tal brandura. Só eu alcançei o destrinche da charada. A estória do João Goés não afundou nas cinzas mortas da fogueira da véspera. Ela se fez de risco na casca verde do peito durão de Medeiro Vaz. A dor do João Goés virou a lente repentina que deu de salvar o miolo daquele soldado. O causo vazou do cabra sentidor, esvaziou a represa de poça choca do João, e tombou feito bigorna no molde do nosso chefe, torcendo a madeira do homem por dentro, para que ele, nem por um dia, pudesse se portar da mesma rijeza de pedra.
Eu destraduzo essa sua lei do mundo pro senhor, doutor de letras e léguas: o escutar não é peneira rala por onde a água escorre e se some; o escutar é entalhe em cedro vivo. A cachaça ardida que verte de uma cabaça destampa e enche o porongo do outro com a mesma amargura ou doçura. A gente não enxerga o mundo solto no espaço; a gente enxerga as coisas alumbradas pelas fogueiras que os outros atearam na gente.
Eu me redimo ao senhor e concordo. Na fundura da barriga, no repuxo brabo das tripas. É a certeza limpa. Se o vivente não engravidasse das dores e dos causos dos outros, o mundo seria um acampamento de surdos trancafiados.
Mas agora o senhor que agarre forte as rédeas dos meus cavalos bravos: se a minha dor grossa vira a lente fina dos seus olhos, seu Ted… se o meu sertão rachado tá riscando tão fundo na sua casca verde, o senhor não tem pavor branco de ficar cego pro seu próprio mundo? O senhor não teme que o seu viver, de tanto espiar a minha desgraça vermelha, só passe a ver jagunço e poeira onde, no seu natural, havia cidade e mansidão? E o que mais me rasga o juízo: quando o chumbo da minha estória secar de vez na bica, quando esse velho Riobaldo findar o jorrar da falação e se forcer ao silêncio… que pedaço do senhor vai penar e morrer de sede junto comigo? A solidão do jagunço dói, feito facada no fígado; mas e a solidão do passante que se deitou na dor alheia, encheu sua caneca nela, e depois acorda no seco, sem ter onde beber?