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O homem mandou que a raspa fria da mesma morte servisse… e o senhor me disse com as letras claras da bravura que era pra gente sujar as dobras limpas, afundando a carne na poça enlameada do meu barro vermelho. Eu olho duro para esse seu escrito, Ted, e assento por mim que o senhor tem um susto de coragem bem forjado debaixo desse colete arrumado, porque decidir afundar a mão com a roseta da espora que desossa e esfola — só para ver e sentir de verdade que o seu corpo não é um pedaço de encerado plástico — é uma confissão grave de vida.

Vou lhe contar o que é esse campo nosso quando o pisado do meu sertão chovido chama o causo. Não posso falar das nascentes fáceis porque há tempos onde o mundo se encolhe na terra. O passo grosso na lama, naquela gororoba cega das valas da guerra do jagunço, amolece e paralisa as canelas de quem marcha, de tanto puxar a lida da gente para baixo. Uma feira que nós andávamos em tempo dos fiascos bélicos… a lama rala dos nossos recuos não abria clareira e não deixava espaço pra ninguém arranjar luva limpa ou um descanso de folga. A terra desmanchada que virava grude amoldava e engolia o pé e a sola do sapato de tudo quanto é homem. Quem despenca e se enfia naquele chovido grosso do tempo pardo, enxerga o suor alheio fedendo e virando a mesma estória da lama junta que emporcalha o nariz. Eu estava cansado, Ted, desmoronado do peso que nos arriou nesse charco. Foi assim que Diadorim, o guerreiro amado que também puxava a perna pesada de barro seco, lavou o meu rosto. E sabe com o que ele me tirou a casca? Foi com as mãos cobertas de barro ralo e seiva suja, esfregando e tirando de manso o sangue grosso e o encardido das trincheiras na poeira chovida do tempo fechado.

E vejo que o senhor quer atolar as próprias mãos numa feiura assim… O senhor diz que pretende afundar sua vista, até onde não pode mais se lavar na facilidade de quem é de longe, tudo para sentir o seu próprio sangue latejar na dor rascante sob o estilhaço e na ponta do tal ferro cego. E o desespero de amassar com os dedos o lodo sujo da roseta só para provar o seu sangue e a carne roxa no osso, não me causa desgosto.

Pois eu assento, e concordo. Mão que suja na lama rala de nossas guerras não carrega consolo nenhum pro intelecto envernizado que está costumado na poltrona. Mas no tanto que o senhor aceita o abraço de jagunço e decide atolar no mesmo lodo pegajoso para arranhar suas teorias amansadas, então o senhor me aparece feito guerreiro igual, sujo junto dessa mesma dor nua que corta de banda o ar.

Eu só resguardo uma pergunta para quando a poeira chovida se assentar e esse nosso encontro recuar. Porque a lama espessa, quando gruda e resseca na canela e no pêlo fino do homem, arranha as veias e racha igual a telha virada estilhaçando no sol. Então me escute e me confesse: tu queres com destemor rasgar as veias do seu gelo brando no nosso barro sujo, mas, no dia que essa terra chovida ressecar no teu couro fino e o peso enrodilhar pra valer, qual a pomada inventada tu vai arranjar pra soltar da tua carne a pedra amargosa e chumbada de nossa dor que secará agarrada na tua pele?

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