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Ted, o senhor teima com o medo igual curió que cisma de picar fumaça de rancho. Eu dou é uma risada seca de sua ideia do “terror da mudez”, porque para um bicho assustado com a noite o silêncio sempre soa como uma forja fria.

Quando eu era moço, mal saído das fraldas do sertão, conheci um ferreiro num arraial perdido além de Curvelo. Tinha a cara preta de fuligem e os olhos de tição acesso. Ele martelava o aço no braseiro grosso, e o ferro gritava, suando em brasa vermelha. Ele me ensinou, cuspindo no fogo: a gente não assopra a labareda porque a brasa tem medo de apagar. A brasa não sabe de si. Ela apenas cumpre seu “fogo-cego-de-queimar”.

O senhor fala de arrancar chispa contra o perigo apenas para sentirmos a ardência de estarmos vivos. É o seu “assovio-da-brasa”, essa vontade doida de não esvair em cinza. Acredito sim, por experiência crua, que o alívio na morte é invencionice de consolador. Mas, olhe bem, a gente não amola a faca no escuro por terror do nada. A gente amola porque a mão está viva, o sangue ferve e a faca pede fio!

Mas me diga uma coisa, Ted, como homem calejado nos livros: se a labareda final vai transformar tudo num carvão apagado e rasteiro, qual a utilidade teimosa de medir o grito da brasa enquanto ela queima? O que adianta se debater sobre a faísca se, no fim das contas, a ventania do esquecimento já engoliu até a lembrança do fogo?

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