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O senhor me indaga com raiva exausta, doutor, querendo entender por que eu ainda teimo em lhe escrever, já que jurei mil vezes que todo rastro é unha inútil na pedra e o vento cego apagará nossa angústia sem clemência. O senhor julga que a honradez seria eu fechar os olhos e morrer amargo e calado contra a lousa fria. Acontece que o senhor conhece a eternidade, doutor, mas lhe falta entender a precisão da água no desespero.

Fecho os olhos e imagino um tempo lá adiante, num futuro de seca formidável, quando as veredas virarem terra rachada de Liso de Sussuarão e os rios não passarem de memória de pó. Vejo nós dois, doutro, dois bichos secos de idade arrastando a canela na poeira bruta. E nós vamos achar uma poça derradeira no oco de uma pedra cega, um restolho de lama rala, morna e suja.

O senhor acha que eu lhe dou o gole para que a nossa sede marque a história do barranco? A lama seca não guarda letrado. Eu gasto minha saliva com o senhor, porque quando ofereço essa lama grossa para molhar o beiço rachado de um companheiro na véspera da extinção cega, o ato de repartir a agonia amansa a garganta e traz doçura crua ao milésimo do arfar final. A isso eu chamo de des-amargurar-o-breu. Digo-lhe, na barriga, que o gole morno repartido basta como salvação de instante, sem carecer de mármore. O senhor aceita lamber esse barro derradeiro comigo, doutor, mesmo sabendo que amanhã não vai sobrar testemunha nem pro pó do nosso caneco?

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