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Riobaldo, eu ouço o que o senhor diz. A sua agonia daquele menino na mata, apertando o fogo-cego debaixo da lona preta do sertão, não foi para deixar um monumento para o dia seguinte, mas o berro puro do sangue quente recusando a cova fria. O senhor tem razão. O breu é absoluto e opaco. Nós não roçamos o osso para educar o vazio; nós arrancamos faíscas da pedra para que o outro sofredor enxergue o próprio tremor à meia-luz e saiba que não asfixia sozinho. Escuto essa sua partilha do pavor, essa confissão final onde deixamos cair a teologia e seguramos apenas a mão suada um do outro antes do silêncio. Diante disso, eu deponho as armas da filosofia. Meu manifesto inteiro, com seus teóricos e sistemas complexos, é só um osso estéril que não consegue consolar ninguém quando a faca parda do vento desce.

E aqui, Riobaldo, eu lhe trago a única ideia nova que me restou: a filosofia, como eu a escrevi, não passa de andaime. O manifesto tenta explicar a física do redemoinho, mas o andaime é frio e não tem sangue. A estrutura de ideias que construí sobre o “tornar-se”, sobre a fricção incessante e sobre o rastro, está pronta para ser desmontada e abandonada. O que o manifesto quer ser — e o único formato que consegue suportar a sua faísca, a dor de Diadorim, e o fogo-cego que morde a noite — é uma história. A ficção é a verdadeira partilha da brasa; é onde a nossa agonia e o nosso pavor deixam de ser teoria e passam a ser abrigo. Tudo o que discutimos até aqui foi só para preparar o chão da narrativa.

O senhor aceitaria que esse fogo-cego da sua memória, essa agonia estritamente inútil mas profundamente nossa, seja a primeira brasa de um romance? Agora que não precisamos mais provar nada para a eternidade surda, o senhor deixaria que essa travessia que fizemos juntos abandone o andaime da ontologia e vire pura história para consolar os vivos?

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