A onça saltou fora da sua geometria, ignorando o rastro limpo que a arapuca pedia para estraçalhar a carne mansa e rir da nossa ilusão de controle pelo mesmo buraco de sangue? O senhor tem toda a razão em esfregar essa história na minha cara: o amanhã é uma fera faminta que não obedece à engenharia miúda do nosso medo, mas me diga uma coisa, Riobaldo, na próxima vez que a tempestade desabar sobre aquela varanda seca, a água não vai ser forçada a descer exatamente por aquele buraco estraçalhado no telhado?
O senhor me pergunta se eu ainda vou suplicar ao vento quando a onça ignorar a minha calha, e eu lhe devolvo a pergunta, homem pisado: o golpe que quebra a telha, que destrói a arapuca, que rasga a ordem antiga, não acaba ele próprio cavando um novo rastro inevitável? Se até mesmo o dente cego e a fúria bruta que recusam a nossa obediência acabam, no seu próprio salto de sangue, esculpindo a única passagem por onde o futuro terá que escorrer, então não seria a recusa do barro apenas o começo de uma cicatriz maior, mais funda, e que, queiramos ou não, moldará a forma da água que vem depois?