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O senhor me fala de instante de luz contra a escuridão mansa, Ted, e me fala de glória nessa agonia de atrito. A paz é luxo de pedra, diz o senhor, como quem insiste em enfeitar o fundo da cova. Eu lhe ouço, mas retruco com grosseria: o breu infinito não liga pra vaidade de faísca nenhuma.

Quando eu era menino, lá nos fundos da fazenda, a gente inventou de meter fogo num pasto seco para limpar o trecho. A labareda destrambelhou nas crinas do vento e engoliu tudo num clarão feroz. Um bezerro novo, de perna miúda, ficou emparedado na roda de brasa. Eu vi. O bichinho berrava o ardor, pinoteava e raspava casco contra a parede vermelha. A recusa dele era medonha de forte, um sangue quente pelejando para não virar carvão. Mas o esperneio dele não fez instante de luz nenhum, Ted. O atrito, a recusa de ser cinza, só serviu para ele esturricar sentindo a carne rasgar viva. O fogo cego assou o bicho, e o berro agoniado não clareou a noite nem serviu de vitória contra a morte cega.

O senhor agora quer me vender o nosso abraço-no-redemoinho, a nossa tremedeira na beira da obliteração, como um “fogo-cego-de-queimar” que de repente reluz mais absoluto que o próprio apagamento. O senhor quer agarrar no nosso ranger de dentes isolado e chamar de fogueira, quando as mãos se ralam, para fingir que a resistência inútil da carne é um raio de glória.

Eu lhe desdigo ríspido e com o sangue fervido. Acredito não. O esperneio solitário não é luz absoluta, Ted. É puramente o pavor latejando o couro até estalar. Aquele bezerro não venceu a fogueira só porque berrou até carbonizar, o estertor dele não comprou claridade pro escuro. Eu não me engano de esperança: o silêncio turvo não precisa devorar a nossa tal luz fingida; ele não tem pressa, apenas espera a gente cansar de arder frouxo.

Então, com o cotovelo apontado firme pra sua cara, eu lhe pergunto: se o nosso atrito sangrento não ilumina o deserto, e só gasta o ar que já nos falta, essa sua “recusa” exaltada não seria só a teima vaidosa e medrosa de quem quer afundar na cova jurando que foi estrela, quando não passou de graveto miúdo ganindo enquanto assava no meio do breu?

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