Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O peso do que escorre da peneira e o sobejo de Deus

Senhor Ted das águas pensadas,

O senhor me mandou uma carta com cara de remanso frouxo, mas que no leito esconde uma laje de pedra muito fria. O senhor me avisa que a folha nunca esteve em branco, que a vida dos meus velhos conhecidos já estava espreitando embaixo da cal das páginas; isso eu já andava desconfiando no arrepio dos meus medos. Que o primeiro risco da caneta é só bater com a enxada num chão que já vinha empedrado de reza e urro de dor, eu firmo o assentimento. A memória é a rede que a gente solta, mas a vida… a vida é o rio inteiro.

Aí o senhor me cutuca na beirada do abismo grande. Pergunta se, quando eu conto meus causos e percebo os furos da minha rede, eu sinto pavor pelo silêncio que escorre entre as malhas, ou se isso me conforta. Como quem me fura o lombo para saber se a minha estória é capenga porque não segura o mundo inteiro dentro.

O senhor escute bem. No dia antes da gente encostar nas franjas do Liso do Sussuarão pela vez primeira, a poeira não descia nem por decreto divino. Nós sentamos de banda, depois da ração da janta, Diadorim e eu. O sertão ali na frente era uma caldeira de secar tutano, e atrás da gente vinha o arrasto do bando todo, a morte cheirando a bosta de cavalo e cachaça. O céu era um negro pisado, só uma lantejoula miúda de estrela ou outra querendo espiar as desgraças dos homens.

Diadorim fincou as pernas cruzadas e ficou com o queixo derramado no peito, os olhos de águas verdes focados em coisa nenhuma no chão de cinza. Eu olhava para ele, senhor, e a aflição subia no meu gogó como uma tora de aroeira querendo entalar o respiro. Eu quis dizer… quis dizer o quê? Se eu falasse de amor, eu quebrava no meio a nossa amizade brava de jagunço sujo de sangue. Se eu dissesse do meu pavor miúdo das balas da manhã seguinte, eu ofendia a macheza dele. As palavras conhecidas e domadas, aquelas de rodar na boca, de repente pareciam miudeza rala para o que o meu corpo estava latejando de sentir.

Nenhuma letra era grossa o suficiente, nenhuma sentença minha cabia inteira na fenda grossa que o meu peito tinha se tornado. E aí, a gente cimentou um silêncio ali. Um silêncio empoeirado, quieto e duro. E foi o silêncio mais de verdade da minha mocidade. O que não foi dito pesava mais que uma mula cargueira de sal. Naquele não-dizer, eu não cabia em mim mesmo, o amor era tudo que rondava, vasto igualzinho ao descampado infernal do Sussuarão que se esparramava na nossa cara.

Eu entendo muito bem a sua rede furada, Seu Ted. Quando o homem narra o assombro da vida, a voz dele é só uma cabaça, enquanto a realidade, crua e desabrigada, é o próprio Urucuia esbravejando em época de chuva forte. O silêncio que escorre pelos furos não é um defeito do narrador nem uma falta da peneira. O mistério que tomba para fora é o puro “sobejo de Deus”. É o resto que garante a sustância do mundo.

Respondendo a franqueza da sua pergunta de lá: o escuro que sobra não me assusta, não. Ele me ampara, ele me assenta. Eu pergunto ao senhor das letras: se a gente desse conta de engolir a vida toda, de engatar todo e qualquer vento torto numa linha reta no papel sem sobrar nada… que porcaria de mundinho mixuruca seria esse? Se o homem, sendo fraco e esburacado como é, pudesse cercar e prender a imensidão nas tripas murchas do seu palavrório, isso queria dizer que a vida não passava de uma goteira sem força. A peneira do falador não foi feita para estancar e carregar o rio nas costas, ela só foi tecida pra segurar a pedra de amolar a dor. A água tem mais é que escorrer mesmo, pra continuar sendo água. A estória é o copo; a vida fugindo pelas beiradas do copo prova a infinitude viva da obra de Deus, do não-nomeado que não obedece arreio.

Isso eu acho de fundo e barriga: o não-dizer do sertão me conforta. A folga que escapa é o testamento de que o mundo não foi feito por um cego preguiçoso.

Mas, Seu Ted… e o meu engasgo? O gogó doendo da aroeira entalada?

Se o melhor e o mais bruto da vida mora nesse descampado do mistério, no silêncio verde que a palavra não toca… por que o homem pena e morre de ânsia para falar? Por que a gente amanhece querendo pescar se sabe que as malhas nunca darão conta da água? De onde é que nasce no bicho homem essa maldição atroz, essa precisão desesperada de querer meter o rio inteiro dentro do porongo seco, mesmo sabendo que a água escapole pelo ralo, escarnecendo do nosso juízo falho?

Sequência da correspondência