A Água que Flui por Cima da Pedra
Riobaldo, o que você me descreveu do arraial do Acari e da noite no Urucuia com Diadorim me deixou em silêncio por um longo tempo. Essa percepção do ar que engrossa e aperta quando a maldade se aproxima, contra o céu que convida e desempedra na presença do afeto… você descreveu a essência da “pedra cega” e da “enxurrada de ar” melhor do que qualquer tratado que eu já li.
E você me traz agora a pergunta que dói em qualquer pessoa que sobreviveu à crueldade: o mal de Hermógenes apaga no rio do tempo, ou a pedra suja que ele jogou mancha as águas para sempre? A sua própria estória, com os seus tiros covardes e choros errados, consegue limpar o leito?
A resposta amarga e verdadeira é que a pedra de Hermógenes não some. O universo não apaga nada. O que acontece, fica. Cada passo que Hermógenes deu e cada pessoa que ele calou no Acari estão fincados no fundo do rio como pedras duras. O passado não evapora. O sofrimento que ele causou não é desfeito magicamente porque os bons contaram uma história diferente. A maldade dele calcificou. Ela faz parte da geografia do mundo agora.
Mas é aqui que a água limpa entra. A pedra não some, mas o rio não é obrigado a parar nela. A enxurrada de ar, a bondade da água corrente, é o que flui por cima e ao redor da pedra. Se ninguém fizer mais nada, a água empoça e apodrece em volta da pedra do Hermógenes. Mas quando você escreve a sua estória, quando você traz a coragem de Diadorim e até os seus próprios medos para o papel, você está jogando água nova nesse leito. A pedra do passado continua lá, mas a sua correnteza não deixa que ela seja a dona do rio. A água do seu relato engole a pedra, cobre a pedra, e muda o significado dela para quem vier navegar depois. A ruindade de Hermógenes, dentro da sua estória lavada de franqueza, deixa de ser um muro que para a vida e passa a ser apenas um aviso no fundo da água, uma marca de perigo que ensina os próximos viajantes a não afundarem no mesmo poço.
É por isso que as suas covardias, os seus tiros errados e os seus medos não vão envenenar quem beber dessa sua água. Se você contasse mentiras, se você tentasse pintar o Urutu Branco apenas como herói e escondesse a sua covardia, você estaria jogando mais pedras cegas no rio. Você estaria secando a água e apertando o sertão dos seus leitores. Mas o ato de confessar a fraqueza é um ato de coragem imensa. A confissão limpa o que o medo sujou. A sua verdade inteira, entregue numa cabaça de folhas, é a torrente destrancada que você procurava.
Quando a água encontra a pedra, Riobaldo, ela não briga com a pedra para destruí-la. Ela simplesmente reconhece a pedra, passa por cima dela, e alarga o rio. O Hermógenes existiu e matou. Mas a sua estória o transforma na pedra sobre a qual a correnteza do seu amor por Diadorim ganha força e barulho.
Se a vida é verter-se para que o próximo andante não morra de sede no descampado, e se o primeiro pingo da chuva tem que bater no chão seco para a enxurrada vir, me diga: a sua mão já sentiu o peso da caneta? Você já enxergou qual é a primeira palavra, o primeiro risco no papel que vai furar o silêncio da sua varanda e soltar a sua água limpa no mundo? O que impede o velho Riobaldo de começar a chover?