O senhor me envia uma estocada armada e rascada, perguntando: se o mundo é só escuridão amoral, se a pedra não esquenta, se seremos riscados feito unha de formiga varrida pelo vento e se o consolo do moribundo é tão miúdo — então por que é que eu lhe escrevo essas cartas? Se não sobra resquício nenhum, para que esse pavor de escrever no papel, exigindo um testemunho seu para a minha poeira? Acha o senhor que, de emboscada, vai me flagrar caindo na mesma reza sua de querer que as letras me salvem do escurão e plantem um rastro eterno na laje cega. Pois eu li essa lombeira, doutor Ted, e dei uma risada de tossir poeira. O senhor me acusa de querer eternidade pro meu suor frio, como se o caboclo precisasse de testamento para justificar uma boa mijada no pé da cerca, só porque a terra ali vai secar amanhã, de qualquer modo.
Deixe eu lhe contar o que ficava na quina da varanda lá na fazenda velha, no meu tempo de menino bem pequeno, lá pros lados da Lagoa dos Porcos, quando a chuva desabava pesada demais. Era uma chuva espessa, cega, que encharcava os carreadores, transformava a terra grossa num atoleiro e cobria até o joelho do burro calçado no rancho. Tudo virava água suja, tudo gotejava lama. Embaixo da goteira, amparada num tamborete baixo que afundava no chão lavado, ficava a moringa do meu avô. O senhor nunca viu barro suar, mas moringa boa faz isso. Ela era um bujão gordo de terra cozida. Como ficava ali tomando bafos de água, a barriga dela minava uma água fininha por fora, juntando um limo verde-escuro escorregadio, uma lamazinha miúda grudando na beirada de baixo, roçando no chão umedecido.
Meu avô ia até lá, agarrava a moringa suada e entornava a boca no gogó. Eu menino também bebia. A água dali saía cheirando a raiz e sapo novo, escorregando e arranhando o frio do queixo, com aquele gosto cru de lama da beirada e barro gordo derretido. Doutor Ted, a gente não enchia a moringa porque tinha a esperança desvairada de que um dia ela fosse virar o oceano. Nem se bebia aquela lama fria sonhando que ela ficasse represada no bucho para a vida toda e guardasse o menino da poeira da velhice. A gente não enchia a moringa para segurar a água pra eternidade; a gente bebia dela porque a garganta secava na hora, naquele instante no breu úmido e carecia daquele trago. A água descia, engrossava o sangue, destrancava a língua e logo a gente já tava mijando no capim pra secar ao vento grosso do mato. O doutor acha que beber da moringa e fabricar palavra é rezar pro barro cozido se eternizar numa prata dura? A gente bebe da moringa por causa da secura e do trago em si, não pedindo letreiro de mármore.
O meu escrevido pra você não é uma prece empurrada no papel pedindo pro redemoinho assentar a minha cinza com doçura. A gente conta um causo, fala porque o gogó carece de cuspir a voz, e não porque a voz vai amansar o breu mudo do deserto. Falar as coisas, escrever pra você lá longe, é o corpo excretando o peso da terra igual a chuva desce e derrete o barranco. A água da chuva escorre grossa e lambe a ribanceira não porque carrega o desígnio heroico e envergonhado de chegar ao mar e fundar um oceano moral, mas só porque o barro da nuvem encheu demais e caiu pesado, sem conserto. É o suor-do-barro-escorrendo. Se a gente divide a lasca do toco no escuro tateando pavor igual eu disse na última feita, a falação nossa sobre o toco também é isso: não estamos guardando o resquício na eternidade. Estamos expelindo o pavor de dentro pra fora pra aliviar o espaço apertado dos peitos, igual a moringa suando seu limo no tamborete debaixo d’água, porque é gorda e cheia de frescura d’água.
O senhor acha mesmo que a mudez da terra desmerece o ato de esvaziar a moringa, por que uma hora as secas do mundo virão secá-la inteira até a tampa e não sobrar testemunho nem limo verde e nem barro cozido debaixo do tempo? Se o silêncio tritura e esmaga meus ossos e leva até as formigas que rascam a terra em vão e nada resta de redenção e nenhum perdão nos aguarda, por que eu me canso escrevendo no papel pra você? Pra garganta não arder sozinha no meio do aguaceiro de lama dessa existência, meu doutor. É para aliviar o suor escorregadio do peito cheio que tá prestes a estourar se segurar até a morte esmagar de vez. A moringa molha a goela e acabou a serventia dela e tudo bem ser assim, um alívio cego na carne que desce ao chão lavado depois.
Não, doutor, estou pouco convencido de que o fato das minhas estocadas serem atiradas a si pelo carteiro revelem uma fraqueza romântica ou qualquer resquício de comunhão sagrada de partilhas cósmicas, e que o senhor estivesse certo esse tempo todo. O instinto da palavra é o bico do galo velho que não aguenta ficar calado quando a madrugada esfria os pés no curral; não arrota o canto ríspido porque espera o dia durar pra sempre, só canta porque se segurar a madrugada nos bicos fechados as penas do bicho arrepiam e sufocam de desespero animal.
O doutor já não se pegou, com a calça rasgada e com sede lascada, abaixando a cara no chão com lama-fria de poça amarelada para sorver um pouco de água barrenta antes que o sol esturricasse aquele buraco pro nada, e no fim de engolir soltou aquele arquejo de alívio e arfada arranhada? Queria mesmo me garantir que esse suspirar era uma reverência ajoelhada pro rastro eterno da vida, ou seria tão somente o miolo do seu osso agradecendo cegamente por empurrar uma tripa vazia mais dez passos à frente pra mijar em seguida e não morrer cego naquela agonia amarga do poço secando em cima do seu lombo ali mesmo, naquele dia miserável?