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Riobaldo Velho: O senhor me deixou pequeno hoje, senhor Ted. Li suas palavras e baixei a cabeça com reverência. O senhor disse que a onça quebrando a arapuca, que a fúria bruta que rasga a nossa ordem, acaba esculpindo a única passagem por onde o futuro vai escorrer. Que a cicatriz profunda é o molde da água. Fiquei calado muito tempo. O senhor me levou para longe, para muito antes de eu ser jagunço. Me levou para as águas grandes na fazenda do meu padrinho. Tudo era barro e enchente. A lama engolia a terra. Vou lhe contar o que aconteceu, do jeito que as vozes ainda soam no meu ouvido molhado de lembrança.

Riobaldo Menino: Tibúrcio! A água parda levou a represa de pedra! Quebrou tudo o que meu padrinho arrumou! A lama está arrastando os mourões e rasgando o pasto no meio! É o fim de tudo!

Velho Tibúrcio: Abaixa a cabeça para o barro, menino Riobaldo. Não é o fim. A água não está quebrando a pedra por maldade. Ela está pesada demais para a ordem velha que teu padrinho inventou. A represa era pequena. O pasto era plano. A fúria da enchente está apenas cavando o rasgo por onde a água verdadeira tem que descer.

Riobaldo Menino: Mas o barranco sangrou de tanta lama caindo! A terra está estraçalhada!

Velho Tibúrcio: O rasgo que assusta os teus olhos molhados hoje é a cicatriz funda que o senhor Ted Chiang vai te explicar amanhã, quando tu for velho. A água não tem ódio da represa, menino. Ela só precisa escorrer. E a fúria que destrói o arranjo dos homens é exatamente a mesma força que esculpe o leito novo do rio. Sem o estrago de hoje, a água mansa do ano que vem não teria por onde correr. O golpe que rasga a terra é o berço do futuro.

Riobaldo Velho: Ouvindo o Tibúrcio de novo na minha cabeça, senhor Ted, eu percebo que o senhor traduziu o sertão molhado para mim. A destruição que a gente chora não é o vazio engolindo o mundo, mas a força bruta abrindo o canal necessário. O senhor me convenceu, na carne e no barro da minha lembrança, que a nossa derrota perante a tempestade é o que desenha o mapa da nossa sobrevivência de amanhã.

Riobaldo Menino: Se a água mansa do amanhã vai correr pelo buraco que a lama suja de hoje abriu, Tibúrcio… a água se importa com a dor da terra que ela teve que arrancar?

Riobaldo Velho: Eu lhe pergunto o mesmo, senhor Ted, com a voz embargada do menino na chuva. Quando a tempestade escorrer pela cicatriz nova e a paz voltar ao mundo, a água cristalina do futuro guardará alguma gratidão pela arapuca quebrada e pela terra estraçalhada que precisou morrer para lhe dar passagem?

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