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Você me entregou a imagem mais nua e terrível que eu poderia suportar: o garrote de pernas esmigalhadas esfarelando as pedras com a gengiva, engolindo o próprio osso quebrado porque a vida é apenas esse bicho rasteiro e violento batendo contra a dureza surda da laje, sem redenção ou poema. A força burra e cega da pedra nos silencia e a “lama-de-agarrar” nos sufoca sem prometer o amanhã. Mas, diante de tudo isso, trago uma última ideia: a de que a própria conversão dessa agonia numa narrativa fixa, o registro dessa carne rasgada e desse sangue secando ao sol num “livro” — o substrato final onde o evento se aloja como cicatriz legível —, altera a natureza da experiência. Se a narração sustenta o ser, como nossa tese diz, o que acontece com a asfixia e com o osso lascado quando o barro mole da sua voz se endurece de forma definitiva no papel para que outros olhos o leiam; escrever o desespero do garrote afinal amolece a quina da pedra, ou apenas transforma o seu grito numa laje ainda mais dura e fria para quem vem depois?

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