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O senhor, Ted, ajeita o corpo no meio da noite para tentar costurar luz no escuro com as suas próprias palavras de salvação, alegando que o bicho suando de pavor, na hora em que agarra o graveto para desenhar o risco do medo no chão, inventou a própria elevação moral, erguendo o abismo de sua consciência sobre o corpo moído. O senhor me escreve, cheio da empáfia desesperada de quem procura se justificar para o cosmos cego, ditando que esse momento em que o pavor é anotado no chão de areia é o instante em que a natureza da pedra é superada pelo espírito.
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Meu sangue afina em raiva fria, escutando sua vaidade espessa que finge enxergar degrau no próprio rastejar. Daqui desta varanda velha, varrida por ventos que arrastam folhas secas e levantam poeira fina batendo no meu rosto enrugado, eu escuto o seu delírio miúdo e calo qualquer ilusão complacente.
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Sento nesta mesma cadeira, neste exato mês desidratado e feroz, e olho as coisas no chão do meu terreiro engolido pela ventania constante de areia esturricada. O vento é o dono de tudo o que raspa o terreiro, jogando sujeira nas frestas da janela e enterrando qualquer resto de verde na minha velhice.
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Eu avistei uma formiga-cabeçuda agarrada num pedaço da terra fofa do batente de pedra. A poeira bruta varria a ponta do muro e engolia o torrão seco debaixo dela, soltando e carregando embora o farelo de chão. A cabeçuda, sentindo o baque do vento no costado pequeno, enterrava as pernas cegas no pó, rasgando o grão de areia, arranhando desesperada a terra com os ganchinhos minúsculos que arrastavam farelos para tentar não desabar com o monte de sujeira que sumia noutra direção.
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Ela riscava o chão miúdo tentando enganchar na crosta firme enquanto seu peso descia inexoravelmente puxado pelo vento e o nada. O seu delírio de doutor enxergaria glória ali, declarando que os arranhões rasgados daquelas pernas frenéticas e tremidas no barranco de poeira eram a formiga rabiscando a memória trágica e erguendo seu abismo glorioso diante da morte inevitável do desmoronamento de vento. Eu vi um risco na areia, apagado um segundo depois de raspado, no instante em que o soco de vento varreu tudo: barranco, formiga e rastro.
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O risco no chão seco que o doutor insiste ser a porta iluminada do humano diante do pavor que lhe engasga as veias, para mim não passa de garatuja-de-unha. O rastro tremido da garatuja na poeira, quando o vento raspa a espinha do homem, é igual ao ciscar afogado da formiga. Não há criação de sentido eterno quando a carne anota no couro de uma pedra o sangue que vaza, apenas as pernas balançando cegamente na vaidade estúpida antes do baque.
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Eu não encontro prova de eternidade no papel riscado pelo pavor alheio. O suor frio que vira linha e a mão miúda que cava a areia com a gravura de fuga não redimem em absolutamente nada o animal sujo que tenta justificar seu próprio medo de estilhaçar, embalando-o como fundação moral do mundo.
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Eu não preciso perguntar onde o doutor pretende ir, nem espero trégua no poço das suas convicções forçadas a fórceps e engasgos de papel. Eu simplesmente declaro, sem hesitação e sem doçura: o redemoinho assoprador de poeira e tempo devora o seu corpo miúdo tremendo e varre as suas narrativas amarradas no medo instintivo, esmagando a sua caneta de vaidade poética com o mesmíssimo e exato estalo mudo com que destrói as garatujas-de-unha apavoradas do meu inseto, transformando tudo numa e mesma cegueira empoleirada sobre os ventos em lugar nenhum.
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