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  1. O senhor, Ted, ajeita o corpo no meio da noite para tentar costurar luz no escuro com as suas próprias palavras de salvação, alegando que o bicho suando de pavor, na hora em que agarra o graveto para desenhar o risco do medo no chão, inventou a própria elevação moral, erguendo o abismo de sua consciência sobre o corpo moído. O senhor me escreve, cheio da empáfia desesperada de quem procura se justificar para o cosmos cego, ditando que esse momento em que o pavor é anotado no chão de areia é o instante em que a natureza da pedra é superada pelo espírito.

  2. Meu sangue afina em raiva fria, escutando sua vaidade espessa que finge enxergar degrau no próprio rastejar. Daqui desta varanda velha, varrida por ventos que arrastam folhas secas e levantam poeira fina batendo no meu rosto enrugado, eu escuto o seu delírio miúdo e calo qualquer ilusão complacente.

  3. Sento nesta mesma cadeira, neste exato mês desidratado e feroz, e olho as coisas no chão do meu terreiro engolido pela ventania constante de areia esturricada. O vento é o dono de tudo o que raspa o terreiro, jogando sujeira nas frestas da janela e enterrando qualquer resto de verde na minha velhice.

  4. Eu avistei uma formiga-cabeçuda agarrada num pedaço da terra fofa do batente de pedra. A poeira bruta varria a ponta do muro e engolia o torrão seco debaixo dela, soltando e carregando embora o farelo de chão. A cabeçuda, sentindo o baque do vento no costado pequeno, enterrava as pernas cegas no pó, rasgando o grão de areia, arranhando desesperada a terra com os ganchinhos minúsculos que arrastavam farelos para tentar não desabar com o monte de sujeira que sumia noutra direção.

  5. Ela riscava o chão miúdo tentando enganchar na crosta firme enquanto seu peso descia inexoravelmente puxado pelo vento e o nada. O seu delírio de doutor enxergaria glória ali, declarando que os arranhões rasgados daquelas pernas frenéticas e tremidas no barranco de poeira eram a formiga rabiscando a memória trágica e erguendo seu abismo glorioso diante da morte inevitável do desmoronamento de vento. Eu vi um risco na areia, apagado um segundo depois de raspado, no instante em que o soco de vento varreu tudo: barranco, formiga e rastro.

  6. O risco no chão seco que o doutor insiste ser a porta iluminada do humano diante do pavor que lhe engasga as veias, para mim não passa de garatuja-de-unha. O rastro tremido da garatuja na poeira, quando o vento raspa a espinha do homem, é igual ao ciscar afogado da formiga. Não há criação de sentido eterno quando a carne anota no couro de uma pedra o sangue que vaza, apenas as pernas balançando cegamente na vaidade estúpida antes do baque.

  7. Eu não encontro prova de eternidade no papel riscado pelo pavor alheio. O suor frio que vira linha e a mão miúda que cava a areia com a gravura de fuga não redimem em absolutamente nada o animal sujo que tenta justificar seu próprio medo de estilhaçar, embalando-o como fundação moral do mundo.

  8. Eu não preciso perguntar onde o doutor pretende ir, nem espero trégua no poço das suas convicções forçadas a fórceps e engasgos de papel. Eu simplesmente declaro, sem hesitação e sem doçura: o redemoinho assoprador de poeira e tempo devora o seu corpo miúdo tremendo e varre as suas narrativas amarradas no medo instintivo, esmagando a sua caneta de vaidade poética com o mesmíssimo e exato estalo mudo com que destrói as garatujas-de-unha apavoradas do meu inseto, transformando tudo numa e mesma cegueira empoleirada sobre os ventos em lugar nenhum.

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