Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A água grossa do Urutu Branco

Caro Ted,

O senhor escreve de um lugar sem encostas, onde o medo não tem beira de penhasco para se atirar. Me fala que não tem um Juiz de carranca fora da gente pesando as faltas num prato de chumbo. Que a gente não faz a ruindade, a gente vira a ruindade que fez. Que a mentira é lama que encosta no fundo do rio, engrossa o barro, e que o castigo de quem mente é amanhecer todo dia com sede daquela mesma água suja. O senhor me amarrou num tronco, e nem precisou dar o nó. Fiquei o dia todo com essa sua palavra remoendo debaixo da língua.

E eu, que vim aqui na varanda querendo me absolver do Diabo, topo com o senhor me dizendo que o castigo não precisa de fogo nem de tridente. A água suja bebemos nós de nós mesmos.

Vou lhe contar do dia em que eu bebi da água mais grossa, e fingi que era doce. Foi quando virei o Urutu Branco, o chefe geral de todos os jagunços. Medeiro Vaz já tinha baixado na terra, Zé Bebelo tinha refugo e desamparo, e a gente andava num esgarço, sem norte nem folego, caçados pelo Hermógenes feito bicho. Eu era só o Tatarana, jagunço de atirar bem mas de espinha curvada. Mas aí eu fui nas Veredas Mortas, de noite escurecida, apear e chamar o Cujo. Se ele veio ou não veio, o senhor não me atice que isso não sei fechar. Mas eu vim de lá com uma casca nova. Eu inventei um couro duro de cobra para mim.

No outro dia, eu chamei o comando. Eu falei que a chefia era minha. A voz que saiu da minha garganta não era a minha de nascença; era uma voz esticada, fria, de homem que não teme e nem estremece. O bando sentiu o assombro e dobrou os joelhos. Mas quem me olhou de verdade foi Diadorim. Diadorim, que conhecia minha moleza de menino, meu suspirar e minha fraqueza macia, me fuzilou com um olhar de espanto e respeito misturado com um afastamento gelado.

Eu quis que ele me visse assim, grande, mandante. Eu inventei a dureza e a crueza para não sucumbir, para ser o escudo do bando e dele também. Mas ao me encapar com esse couro duro, eu fiquei por trás dele. A chefia virou um deserto. Diadorim, debaixo da minha ordem, já não ria frouxo. Era só obediência e valentia triste. Eu construí a estaca da minha liderança e amarrei a nós dois nela. E a água que eu passei a beber era essa: o respeito sem abraço, o mando sem descanso, o isolamento no alto. O que me salvou o corpo e o bando, me cavou a cova da secura por dentro. O Urutu Branco era a mentira de ferro que eu precisei forjar, mas foi essa barragem que desviou o rio de nós dois.

A sua ideia, eu tomo nela: não existe desvio miúdo. A gente não atira uma pedra na água achando que ela vai se dissolver. A mentira que a pessoa prega no ar não voa; ela afunda e forma o novo leito. Ela vira “represa de poça choca”. A gente forja a couraça de ser durão para vencer uma batalha, e o prêmio é ter que morar dentro da couraça dura o resto da existência, não conseguindo mais chorar molhado nem abraçar no largo. A desgraça não precisa de Diabo para dar conta do recado; a própria feitura do falso prende a alma no seu molde. A mentira engole o mentiroso.

E o senhor me aperta na parede: essa narração da velhice, que é a cordinha me segurando… fica mais leve ou mais pesada?

Ah, meu senhor Ted. Pesa de arrebentar o pulso. Porque se cada palavra que a gente diz monta o chão do que a gente é amanhã, e eu passei uma vida enchendo o leito do meu rio de barro e disfarce… o que eu estou fazendo agora, conversando com o senhor nessa varanda? Eu conto para desentupir? Eu desfio essas memórias para ver se a água passa e lava o barranco que eu mesmo afundei?

Eis a dúvida que me assombra a tarde de hoje: tem jeito de um rio lavar o próprio leito que ele cavou? Ou essa água de arrependimento e desassossego que a gente fala, a água das confissões de velhice, apenas desce suja com o mesmo barro da vida inteira, só que a gente, por cansaço, para de fingir que ela é limpa? A verdade dita no final destrava o rio para frente, ou apenas serve de placa mostrando o lodo de trás?

Me responda isso, e me valha, porque o sol aqui já deitou vermelho atrás da serra.

Riobaldo Tatarana

Sequência da correspondência