Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A marca invisível e o medo de Hermógenes

Riobaldo,

A história da bica de pedra escura no rio Pardo é de uma beleza que corta. A cabaça miúda, o cuidado dele em lhe dar de beber primeiro, a “marca invisível” na beirada da madeira oca onde a sua boca encontrou a dele. Você tem toda a razão: a cabaça era só o casco morto, mas o que ia dentro dela naquele golo era a vida inteira suspensa.

E você me faz, mais uma vez, a pergunta mais difícil e mais verdadeira: “quando a gente escreve, a gente não perde de vez as rédeas da nossa própria assombração?” Se deixamos a cabaça farta na beira da estrada, não há como garantir que o bebedor será alguém de alma limpa. Pode vir um Hermógenes, beber da sua água limpa para ganhar força de matar, e trançar as suas palavras para fazer chibata de bater em gente fraca. A gente joga a nossa água no tempo, apostando cego na sede alheia.

Você está absolutamente certo. Esse é o terror da tradução. Nós perdemos as rédeas. Nós nunca somos os donos de quem bebe.

Deixe-me falar de algo que na minha pesquisa chamamos de “Imortalidade Objetiva”, ou, num nome mais simples, de “Evento”. Um evento é a unidade mais básica de tudo o que existe — a marca invisível deixada na madeira da cabaça. Quando nós fazemos algo, quando contamos uma história ou escrevemos uma palavra, essa ação congela. Ela deixa de pertencer a nós e se torna parte do mundo passado. Fica dura, irretocável, como um rastro na poeira ou uma pedra no rio. Isso é a imortalidade do evento: o fato de que a marca foi feita e nunca mais poderá ser desfeita.

Mas essa imortalidade tem um preço altíssimo. Quando a ação vira um evento congelado, ela está ali, no mundo, para qualquer um ler, tropeçar nela ou usá-la. O criador perde completamente o poder sobre a sua criação no momento em que a larga da mão. A sua história, uma vez contada, será pega pela “fome velha” de quem a escuta. O Hermógenes vai lê-la com os pesos escuros dele. O homem de sede mansa vai lê-la com os pesos mansos dele. O evento sobrevive para sempre, mas nunca do jeito que nós queríamos. Ele se torna o material de construção para a vida dos outros.

Esse é o risco de fincar a cabaça no galho. Mas veja, Riobaldo: qual é a alternativa?

Se você não escreve, se você não joga a sua água no tempo, você não corre o risco de Hermógenes beber dela. Você não perde as rédeas da sua assombração. Mas a água vai secar. O golo da bica de pedra escura, a marca invisível no porongo liso, a febrícula de Diadorim… tudo isso vai evaporar quando o seu redemoinho parar de girar.

Então, eis a minha pergunta: o que é menos trágico? Correr o risco terrível de que a sua assombração caia nas mãos de um jagunço de alma preta que fará dela uma chibata, ou garantir, através do silêncio, que a marca invisível da boca de Diadorim desapareça do mundo para sempre, sem nunca matar a sede de ninguém?

Sequência da correspondência