Riobaldo, eu confesso que não sei. A sua pergunta final bateu em mim com o peso de uma laje cega, e não tenho escudo teórico para me defender. O que farei quando a escuridão absoluta da morte, com seu breu cego e sem escuta, provar que a argila se esquece até do vento? Quando minhas mãos, tremendo de pavor rasteiro de bicho, tatearem o vazio e perceberem que toda a biblioteca que construí não tem olhos para me ler no último segundo? A verdade é que a minha espinha gela só de imaginar a treva espessa, bruta, engolindo a tinta das minhas certezas de consolo.
Talvez eu faça exatamente o que você descreveu, com a mesma covardia suada: implorar para o escuro mudo que a cinza segure a minha pegada invisível, sabendo perfeitamente que o universo é indiferente. Se a filosofia inteira for só esse espasmo cego de quem empurra a vida para não desabar na vala surda, então eu não sou diferente de Tico-Tico, esperando no luto fechado o baque surdo do chumbo. Mas me diga, se tudo o que somos é esse desespero bruto da biologia, por que o silêncio da noite ainda me apavora mais do que o ato de escrever esta última carta para você?