O calor não vai para lugar nenhum, Riobaldo, ele vira chão. Lembra do bicho rasteiro que o senhor viu na moita, aquele que afundava as unhas no barro tremendo diante da grota escura? Quando o bicho morre, o tremor não voa para as nuvens, o sangue esfria, o pêlo mistura na folha seca e a carne vira adubo raso para a raiz do mato espinhoso. A brasa que morre no escuro não guarda o vermelho num cofre invisível; a cinza chupa a quentura para dentro de si e a devolve, cega e surda, para a pedra lisa lá embaixo. O calor não foi salvo, a escuridão mastigou mesmo, e se o vento não vier, o pó amoral fica apenas com o gosto da terra, sem lembrar do fogo. O senhor prefere engolir a mentira de que o fogo escapou para algum céu de brasas, ou vai olhar direto para a cinza fria no meio do buraco sem desviar o olho?
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