O Carimbo na Neve
Riobaldo, como um homem encontra a imagem exata da eternidade misturada na sujeira rala de uma lata de tinta amolgada? Como o senhor consegue pegar um vira-lata amarelo, farejando migalhas numa manhã de sereno, e transformar a pata descuidada dele na prova final de que tudo que a gente faz nunca mais nos pertence? Acaso não percebe que, ao me contar do cachorro pisando no charco de tinta e carimbando a madeira lavada da sua varanda, o senhor acabou de pisar na minha varanda também?
O senhor me pergunta se o branco liso da solidão do meu chão intocado não era mais doído de carregar do que a minha oficina agora, preenchida pelo rastro vivo do estalo incerto da sua espingarda. Mas não será verdade que a neve intacta é apenas uma sala de espera, um silêncio que esmaga e paralisa, aguardando justamente a sujeira de um passo alheio para ter algum sentido? Não é a própria dor do isolamento que clama pelo susto da sua boiada suada invadindo o meu quarto? E agora que o carimbo daquela unha miúda se desapegou da sola do cachorro e da tinta da lata para morar para sempre na madeira limpa da minha mente, como o senhor acha que eu poderia voltar a olhar para o meu chão e enxergar apenas o branco?