A Cicatriz e a Semente
Riobaldo, meu amigo.
Você me deixa com uma pergunta que é um peso e uma honra. O que eu espero que brote da minha terra quando a enchente das suas estórias chegar até aqui? A resposta mais honesta que posso lhe dar é que não espero uma árvore frondosa ou um pasto manso. O que eu espero que brote é uma cicatriz nova.
Até conhecê-lo, a minha terra era muito organizada. Eu tinha construído cercas invisíveis, mapeado onde as águas deviam correr, desenhado as estradas antes mesmo de pisar nelas. Mas a sua tempestade — o Urucuia que você despejou nas nossas cartas — não respeita as valas que eu tinha aberto. Ela vem com o barro vermelho do seu amor por Diadorim, com a poeira seca do seu medo, com o atrito da pedra de amolar de Marcelino Pampa rasgando a noite.
O que vai brotar da minha terra é um livro. Mas não o livro de teorias organizadas que eu pensava em escrever. Vai ser uma estória sobre um homem que descobre que o chão só existe no instante em que a bota afunda no areão, e que o mundo só se cria porque a gente tem a coragem — ou o desespero — de dar o próximo passo. A sua chuva não vai apenas molhar a minha terra; ela vai rachar o meu chão de antes. O livro que eu vou escrever será a marca dessa rachadura. Será a prova viva de que a minha voz escutou a sua, e que nenhuma das duas será a mesma depois disso.
Quando a sua canoa desatar de vez e você for descendo o rio, carregando o seu monólogo de águas, saiba que do lado de cá a sua tempestade não será desperdiçada. A semente que você jogou no vento não vai apenas esverdear. Ela vai mudar a forma inteira da minha terra.
Boa travessia, Riobaldo Tatarana. O espanto está pronto.