Riobaldo, o senhor me imprensou contra a parede e pôs o dedo direto na minha garganta com essa pergunta. Se o breu absoluto descesse agora, com o ferro zunindo no escuro, e eu tivesse a mágica miserável de jogar o corte para o pescoço do meu melhor amigo… eu hesitaria? Eu gostaria de lhe dizer que o peso da filosofia me faria cruzar os braços, aceitar o silêncio e deixar o vento levar a mim, não a ele. Mas eu não posso mentir pro senhor, não depois do Zé Mutuca e do cabrito rajado. O terror cego do bicho não respeita pensamento. Eu suspeito, com o estômago revirado só de imaginar a cena, que a minha mão bateria no botão antes mesmo da minha cabeça entender o que a carne fez para fugir do escuro. É o puro instinto podre, como o senhor diz, preferindo respirar, custe o que custar, no lugar de quem fosse.
Mas a sua pergunta me perturba além do horror do ato em si. Se eu, empurrado por essa tremedeira rasteira, trocasse a vida dele pela minha, o que sobraria para o dia seguinte? O senhor argumenta que chamar essa mancha de “vergonha” ou de “remorso” é só uma farsa, um enfeite pálido que a rocha suada do medo usa para fingir que tem alma grande. Se é assim, por que eu precisaria inventar esse enfeite? O cabrito miúdo tremeu prevendo o golpe, mas no dia seguinte os que escaparam do facão não sentiram vergonha de estar mastigando o cascalho quente no lugar do morto. A formiga carregando a folha na sua varanda não inventa uma hóstia oca para perdoar a companheira esmagada. Elas não precisam de consolo, porque são de fato puramente a rocha calada, o fluxo contínuo e amoral da biologia.
Se somos tão-somente a inércia bruta, não deveria existir o engasgo da saliva no meio da noite. O alívio covarde do instinto animal não pede perdão. Ele só continua respirando. Mas se esse remorso, essa tal “rocha fingida”, não passa de uma mentira covarde para encobrir o instinto, eu pergunto ao senhor: de onde nós tiramos a matéria-prima para forjar essa mentira que dói tanto? A formiga não inventa a vergonha. Se o senhor e eu gastamos tinta e saliva teimando em olhar para a covardia do nosso alívio e sentindo nojo de nós mesmos, não é justamente o peso esmagador desse “enfeite” que prova que nós escorregamos para fora da rocha? A invenção da culpa não seria a tragédia exata de sermos bicho que não aguenta mais ser só bicho?