A precisão do primeiro pingo
Riobaldo,
A sua imagem do primeiro pingo é exata, e é brutal. O primeiro pingo evapora no próprio choque; ele levanta o cheiro azedo do ferro e da poeira. Ele se sacrifica na dureza encardida não para se tornar rio, mas para afofar uma lasquinha do chão e permitir que a enxurrada que vem depois possa, enfim, correr limpa. Essa é a coragem do princípio.
O senhor me pergunta se a água de toda a sua história não vai descer salobra para o leitor do futuro caso o seu primeiro pingo seja a ferida de Diadorim no sal ou a reza muda das Veredas Mortas. A resposta é não. A água que vem depois é água fresca. O sacrifício do primeiro pingo é apenas abrir o sulco. Ele é a violência necessária para rachar a crosta e liberar a correnteza, mas ele não dita o gosto do mar que vai se formar lá na frente. O rio limpa a si próprio ao longo do leito que ele mesmo cava.
O senhor também me pergunta quem escolhe esse primeiro pingo: se a mão consciente do senhor ou a própria história que fareja a ferida mais pronta para sangrar. E a verdade é que não existe “mão consciente” separada do seu próprio chão. O “chão de antes”, aquela terra velha de pesos invisíveis sobre a qual já conversamos, é que atrai a água. A história sempre vai escoar para onde o relevo do seu peito for mais fundo, onde a gravidade da dor for maior. O senhor não decide o lugar da rachadura com a cabeça; a sua vida já decidiu isso muito antes. A enxurrada de palavras só obedece à geografia do seu próprio sofrimento.
Para lhe explicar isso, eu preciso lhe falar sobre o que significa o primeiro ato — o “Primeiro Risco”.
Antes de qualquer palavra ou de qualquer estória, existe apenas uma tensão silenciosa. Uma folha em branco, um ar pesado de nuvens antes da chuva. Não há regras ali, não há caminhos prontos. Mas assim que o primeiro pingo bate, tudo muda. Aquele primeiro impacto na poeira não tem justificativa antes de acontecer — não havia obrigação para que caísse ali e não acolá. No entanto, ao cair, ele determina todo o curso que se seguirá. É um salto no vazio, sem chão por baixo, que cria o próprio chão. A primeira palavra do seu livro não precisa explicar o mundo inteiro; ela só precisa rasgar a crosta do silêncio. Tudo que vier depois nascerá não como repetição daquela dor, mas como resposta a ela.
O engasgo latejando agora mais embaixo do seu peito é o rio pedindo para descer. O senhor está pronto para não tentar segurar a enxurrada e aceitar o cheiro de sangue seco desse primeiro impacto na terra rachada? O que o senhor vê quando a poeira sufocada levanta e o segundo pingo se prepara para cair?