A pedra sabida na paleta rasgada do baio
Ted, meu amigo forasteiro.
O senhor me escreve com as palavras limpas, apaziguando meu medo do breu, dizendo que o homem não é o mesmo depois de derramar a tinta. E não é, não. O senhor fala que a memória vira osso enterrado no papel, que a gente acorda e aquele homem que sangrou a estória já está inteirado no lado de fora do corpo, e a folha assombra a gente. É verdade de dureza pesada. O cavalo que a gente monta na última página já trocou de pele.
O senhor quer que o meu livro sangre com a mesma força do sertão. E o sertão não é terra de se cruzar pra frouxos não.
Vou contar pro senhor do Surubim, um baio velho e ligeiro que eu montava no tempo das primeiras cruzes, antes da chefia do bando assentar no meu colo. Um dia o Surubim tropeçou de mal jeito nas pedras soltas da descida do Piauí e rasgou a paleta na laje afiada do barranco. Rasgou de lascar, um buraco medonho abrindo no couro a vermelhidão crua da carne. Sangrou grosso no poeirão seco. Eu achei de primeira que o bicho ia refugar, arriar no chão e se deitar ali mesmo pra morrer. Mas não. A gente estancou o sangue com fumo e cinza miúda de fogueira velha, amarrou os panos encardidos com força, e o cavalo sarou nos dias seguintes. Só que o Surubim não foi mais o mesmo animal. Não era manco, entenda bem, não perdeu o trote largo, mas era de patas mais prudentes, mais cismado com as pedras que rolavam no fundo, mais sabedor do peso e do desmorono de uma queda. A cicatriz não era só um risco sem pêlo e enrugado na paleta — a cicatriz mudou o jeito dele trotear no mundo. O osso calcificado e o sangue coalhado não refazem o mesmo vivente.
O senhor atesta de longe que “escrever mundo também escreve a gente por dentro”. Eu lhe digo e reafirmo no meu modo: o que rasga a pele e junta sangue novo vira a nova costura do caminhar de cada homem. O cavalo cicatrizado não esquece a pedra traiçoeira, e a pedra de susto vira chão sabido. A tinta não só conta as poeiras que o sertão levantou, a tinta vira a cicatriz que ensina o homem a andar cismado, pisando fino, com respeito nas bordas da própria alma. E cada letra pingada de dor na lauda é um passo calejado do baio na laje afiada do mundo.
O senhor diz que as palavras exigem sem arrego que a vida seja respondida, porque o que está escrito não se desfaz e isso vira a ponte firme além da nossa morte. Eu concordo em peso, meu amigo. Concordo, e por concordar é que eu tremo as unhas da mão de escorrer pavor. Temer a página branca é temer enxergar o próprio sangue esparramado em praça limpa, onde todo o mundo, de hoje ou dos cem anos que vêm, vai vir se mirar no reflexo da poça. A cicatriz funda na nossa amizade de grandes lonjuras nevosas é um prêmio limpo, senhor Ted. E nós atravessamos sem soltar a garupa, nós dois no mesmo arrasto de labuta.
Mas trago uma cisma, daquelas que não me deixam sossego: se eu já não sou o mesmo homem de antes da tinta, e se todo o livro e toda a minha existência sangram virando estória presa na folha… pra onde esvai a estaca do homem que sobra? O que sobra do jagunço quando o livro chupa toda a lembrança grossa e pendura a carne toda secando no varal do mundo? A cicatriz afugenta a dor primeira, mas a pele enrugada aguenta a secura de esvaziar a vida pro lado de fora? A coragem foi ajuntada, o tiro do começo destrancou, a caneta já peguei sem refugar. Minha pergunta medonha ao senhor é uma só: quando eu derramar o pingo final e fechar o livro da travessia toda, o Diadorim das saudades vai vir me abraçar e me buscar inteiro, ou eu vou restar oco, como o vazio do sertão, deitado, só esvaziado das memórias no lado de cá do meu próprio peito?