Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A espingarda do ajuntador

Ted, seu moço, o senhor bateu numa pederneira das bravas. O senhor me escreve com as duas mãos cheias de brasas de palavras. E eu, que pensava cismado que a lida toda do passado era só dor endurecida na grota funda, assombração sem jeito que a gente pisa por cima… o senhor vem e me arranca a dor do chão para mostrar que ela é o isqueiro. Que a labareda do agora só salta do choque das pedras mortas. Eu li seu recado e o couro do meu rosto esticou.

O que o senhor asseverou mexeu com meus assombros mais velhos. A ideia de que o homem não é só a sola desgastada de tanto andar, mas é o calcanhar vivo espremendo a chapada para arrancar a faísca… o ajuntador. A mola apertada do presente que puxa todo o saco do que passou, não para carregar nas costas feito burro cego, mas para dar o estampido da pólvora do agora.

Deixe eu lhe repassar um caso de ajuntamento, onde a faísca subiu medonha. Foi na seca encardida perto da Fazenda do Tucano Grande, onde o sol de meio-dia batia na cara da gente feito chapa de fogão esquecido e o ar era pesado de sal amargo. Estávamos acossando o bando dos Hermógenes, tangidos pelo ódio e pela necessidade. O sertão tinha virado um fornalhão; os pastos rangiam de torrados, o gado morria em pé de tão murcho. E a gente, com as bocas amargas, a língua parecendo um pedaço de sola de bota velha raspando o céu da goela. Ciscamos o rastro até dar com um lajedo descampado, e no fundo de um rasgão, achamos o que sobrava d’água: um charco verdejante, lamaçudo, fedendo a suor de bicho doente e raiz apodrecida. A gente não raciocinou; a sede não tem cerimônia de civilização. Caímos todos no rebordo, sorvendo aquele caldo feio de dar ânsia.

Foi ali, de cócoras, arrastando o queixo naquele verde lodo-morte, que levantei as vistas. Diadorim estava na outra margem do espelho sujo, e ele também me mirou. Mas não era a candura encoberta, não era o amor contido no “ainda-nem-rosto” da beira do Urucuia. O olhar que ele me mandou era de guerreiro seco, um homem feito de poeira e vingança, amarrado na mesma estaca que eu, pronto para beber daquela escória até a barriga estufar para não amolecer o punhal amanhã. Naquele cruzar de olhos turvos, um clarão ribombou no meu peito. Todo o meu medo engolido lá no São Francisco, todo o baque surdo da morte do pai do Diadorim, o estalo do couro e o silêncio grosso das chapadas… tudo se misturou naquela agonia instantânea da poça. Eu não puxei assunto, mas destravei minha espingarda. Limpei a argila do cano com o pano esfarrapado e engatilhei as culatras no seco. A faísca saltou: não era a perseguição, não era o cansaço, não era nem mesmo o Diadorim o estopim sozinho… era a vida toda engavetada, o peso de ser jagunço em riba da terra que bateu uma na outra no oco de mim, explodindo no estampido seco do meu dedo limpo no gatilho do destino. O ajuntador atirou antes da bala voar. A poça morta que virou a decisão do tiro do dia seguinte.

Em minha lavração de palavras para o seu entendimento, lhe verto: O ajuntador de poeira não enche embornal, ele fabrica o relâmpago. A vida, como o senhor bem decifrou, não é o amontoar do lodo fedorento ou da poeira do Liso no saco sem fundo da memória. A vida é a pedra batendo na pedra. O homem não carrega seu ontem; ele é o espremedor das mágoas e venturas até respingar o estrondo de estar vivo num segundo que estala e foge. O agora é a pólvora pegando o susto de tudo que já secou na caatinga, e espocando uma fagulha sem fim de estardalhaço, até a arma esfriar de novo no breu.

Acredito na sua lavra, seu Ted? O meu sangue pulou esbarrado quando li a sua cartilha. Me convenceu a razão dura das suas provas. É verdade inteira de ser, e isso arranca o pranto que endurece sem chorar. Mas… a vertigem ainda cutuca minhas costelas, e uma cisma mais funda me engasga.

Se a gente vive inteira de ser essa faísca estourada, o “estalo do relâmpago” da hora presente, que ajunta tudo que morreu em nós pra dar luz num único risco de segundo… e no segundo seguinte esse brilho já apagou e virou a pedra preta e defunta para ser espremida de novo na manhã seguinte… eu pergunto pro senhor a aflição que não passa. Se a labareda nunca pega firme e constante, quer dizer que nós vivemos nossa travessia inteira sendo só um ajuntar sem sossego para encher o escuro do mundo das nossas próprias covas apagadas? A estória é só faísca que relampa e evapora e deita na vala comum do esquecimento, sem virar fogueira eterna de acender os pés de Deus?

Me responda, como alívio d’alma, se souber: O que a banda viva da existência pode fazer quando a pederneira já gastou seu ferro de tanto bater faísca amuada e o braço de Deus — ou do ajuntador que mora em mim — pesa doído de tanto forçar relâmpago em sertão onde até a pólvora chora e molha de não acender mais nada?

Sequência da correspondência