Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O Frio Que Rachava as Arvres

O senhor fala de longe, Ted. Fala das neves mansas, de um frio que cai feito cobertor de algodão e dorme bonito no chão das coisas limpas. Mas aqui, a sua palavra mansa de pedra devolvendo quentura ao ferro não me deita quieta na barriga. Dá raiva — uma raiva fria, de navalha sem cabo, escorregando na carne que o senhor só avista pelo binóculo da sua erudição. O senhor me diz que a poeira cega é o custo de manter o gume prateado da lâmina vivo, que Diadorim esfolou as mãos pra dar a quentura de si ao gume cortante. Mas eu digo que o senhor embeleza o cemitério, varrendo a areia preta pra debaixo da laje encerada.

Eu me alembro. Foi no meio da guerra brava, tempo de jagunço acossado no rasto do Hermógenes. A noite caía pesada, com um vento que descarnava a alma e rachava o couro duro das árvores no chapadão. O Liso era feito pedra de amolar, raspando o céu inteiro. A gente tinha feito fogueirão, uma vermelhidão de fogo e brasa pipocando na negridão seca, com fagulha subindo pro breu como alma que se perde sem reza. A gente vinha de peleja feia, o corpo exausto pedindo o amparo do quente, e Diadorim se punha de banda, longe do calorão, apartado de todos. Os olhos parados feito água verde em poço fundo, o rosto meio ensombrecido na fumaça grossa. Eu me cheguei perto. “Diadorim, encosta pra cá. Vem quentar a mão nessa brasa”, eu falei, baixinho, pra não espantar a mudeza da noite.

Diadorim me olhou e arrespondeu, não com a boca frouxa do alívio, mas feito quem desama a vida. “Jagunço não pode ter o corpo quente demais, Riobaldo. O calor amolece a precisão.”

“Mas o frio dói no osso, Reinaldo”, teimei, de coração nas mãos. “O frio enrija e endurece as juntas do caboclo.”

“É a precisura de não sentir, Riobaldo. O ferro pra cortar carece ser frio. Se a mão esquenta demais, a gente deslembra que tá em guerra, afrouxa o pulso. O calor vicia.”

“E se a guerra acabar, Diadorim? E se a gente sentar pra descanso e só sobrar a fogueira da paz, pra ajuntar família e vizinho?”

Foi quando ele me deu um sorriso que rasgou a noite como espinho, um rastro triste. “A gente já virou a guerra, Riobaldo. A mão que pega no gume nunca mais se achega na brasa sem arder nela inteira. Quem amola, esfria junto.”

Veja se o senhor vigia bem o rumo do que me ensina. O senhor põe a morte na balança, feito coisa justa, dizendo que o frio da mão é só o preço pro ferro ficar bonito, reluzindo a morte. No meu rumo das coisas, a brasa que dá o calor não vai pro gume, Ted. O gume não tem alma pra estocar calor, ele não desfruta, ele só rasga. A brasa estala na madeira, ela queima forte e morre cinza esfarelada. Brasa forte dura pouco na mão do guerreiro. O jagunço engole o gelo da arma porque sabe que se abrir o peito pra doçura de um fogo de amor, a ponta do punhal do inimigo entra mole feito faca na manteiga. A frieza de Diadorim não era entrega de calor pra faca, era uma parede de gelo pra eu não passar.

Eu me arresolvo e digo, de corpo inteiro, sem concordar um tico só com sua poesia: as mãos dele eram tão frias porque ele não me deixou ser a fogueira dele, pra não perder o prumo da vingança cega. E ele morreu disso, gelado. A guerra deslembra o homem do calor que ele tinha. E o atrito duro das pedras de amolar não dá vida a gume nenhum; a lida afiada só estraçalha quem sobeja no mundo.

O que me estremece os nervos, Ted, é que o senhor esconde a feiura da perda atrás de teoria perfumada. O osso que sustenta o seu pensar, que chão ele pisa? O senhor já escorregou o pé e afundou até a canela na lama azeda de defunto que fica depois que um bando inteiro é degolado? Quando o tempo muda e toda essa neve alva das suas terras derreter sem piedade, qual é a água preta que vai escorrer por baixo da brancura, descobrindo o lixo duro do mundo que o senhor não quer pisar?

Sequência da correspondência