A coragem do des-governo na correnteza
O senhor me acoou num canto de cerca, seu Ted. Me puxou pelo brio, de chofre, cutucando no osso onde o jagunço mais se orgulha: a coragem de ser. Coragem de tiro no alvo de dia claro, eu tive. Coragem de faca no escuro, tive também. Mas o que o senhor me cobra não é o pulso firme no gatilho. O senhor me pede a coragem de atirar no vazio, para as gentes que eu nem vejo, sem saber se a estória que eu abro cai no colo de amigo ou na boca de traidor. O senhor me desafia a soltar a tampa do meu poço amargo e deixar o jorro virar rio de papel, para qualquer andante beber.
A sua carta me deixou num tremer de nervo por dentro. Não foi o medo covarde, que afina a perna; foi o apavoramento largo de perder o senhorio. A pior agonia do homem, descobri agora com as suas falas, não é a dor, seu Ted. A pior agonia é a ausência de amarra. É a coragem miúda de entregar o que é seu para a força cega do mundo.
A sua cobrança me puxou, nas memórias compridas, a vez que estivemos na beira do Urucuia, o meu rio de amor e assombramento. Chovia que o céu parecia estar desabando em cacos, a noite era uma tinta preta e graúda. O bando da gente, carecendo de bandear pro outro lado; o cangote fumaçando de jagunço rasgado nos perseguindo. Aquele Urucuia roncava grosso, estufado nas cheias, levando árvore madura, rebentando os barrancos todos. Entrar naquela barriga d’água era ir pedir a bênção da morte. Mas a morte já vinha correndo atrás da gente com chumbo e gana.
Eu montei o Siruiz, meu cavalo bom. O bicho empacou na beirada da desgraça, farejando o sumidouro, e a água já batia gelada no peito dele, puxando a terra debaixo da unha. Sabe o que se dá, seu Ted, quando a gente quer governar na rédea curta a travessia numa enchente brava de noite sem luar? O cavalo e o cavaleiro vão a pique. O bicho endoidece, perde o prumo, a água entorta as patas, a correnteza rola por cima, engole. O homem peleja para mandar no que não obedece e acaba no lodo fundo, sem respiração.
Me lembro que gritaram do raso: “Solta as rédeas, Tatarana! Garra na crina do bicho e aporfia com Deus!” Foi a voz grossa do Medeiro Vaz cortando o vento. Eu soltei. Largo no desgoverno. Largar o controle da própria vida pro lombo do animal e pro ronco da enchente. A água entupiu a nossa vista, a torrente varreu a margem, rodopiou o Siruiz no miolo grosso do rio; eu sem enxergar nada, arrastado por uma força que nem se via de onde vinha, rolando pro desvão de que eu não sabia a morada. A agonia era imensa. Poderia dar em lajedo agudo, em poço morto.
Essa água sua, esse rio do livro que o senhor avisa que é carecimento meu de verter, é da mesmíssima safra daquela travessia no Urucuia. O senhor me aconselha que a estória no papel é o desentupir para não apodrecer de poça choca, e que eu preciso da valentia de deitar no rio da vida o que eu chorei e atirei, solto de rédea, com as crinas das minhas palavras sem cabresto de papel e tinta. Que não sou eu quem dita para quem a sede mata amanhã. O meu dizer é o des-governo da lembrança.
O que o senhor descreve no seu papel elegante, eu repito na minha fala: a derradeira provação do vivente é a coragem-do-rio-abaixo. A inércia da entrega brava. A gente peleja o curso inteiro da existência para escorar o destino, para guardar o peito das emboscadas, para vigiar de coruja o amor de Diadorim, o resguardo do bando… e tudo num cerco só, com unhas cravadas no estribo da vida. No fim das contas, a mais pesada de todas as valentias não é a lida de segurar com sangue. É o milagre de destrancar a mão e deixar ir, não pela perda, mas para que a correnteza, solta e não mandada, alimente longe a vazante.
O meu estômago endossa as suas razões. É um endosso que dói como ferida sarando da febre. Se eu amarrar essa nascente suja, como estou amarrado nela, morro estancado da minha própria desdita e ninguém lava o rosto nela amanhã.
Então eu acato, seu Ted. Eu vou despejar. Soltar as correias e o meu estribo, escancarar para esse ouvinte silencioso o tamanho do meu sertão, todo o encruzilhar. Mas o senhor que é letrado em como a força viaja adiante, me arrume a paz do último receio: o homem que deixa jorrar todo o seu viver no papel, sem reter o controle e destrancado de vez, vira casca vazia nas ribanceiras? Se o livro é a morada de toda essa água limpa que segue solta pros que vêm nascer, eu mesmo, que contei e esvaziei, morro de caneco seco e sem oco na alma para me assombrar na velhice?