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Sô Ted, o senhor aperta o meu calo com uma lhaneza que quase me arranca um sorriso dolorido pelo meio da poeira braba. O senhor pergunta se eu amparo essa seiva rala, se eu seguro a caneta de cá, não como consolo pra amanhã ou depois, mas como o último assopro nosso na mesma fogueira invisível. O senhor me convida a escrever a nossa agonia num papel que a ventania cega vai inevitavelmente rasgar e levar, só pra atestar na carne que não precisamos de imortalidade pra manter a “firmeza-calada”.

Eu recebo o seu convite com as duas mãos calosas, sô Ted. Com uma ternura pesada que só quem mastigou areia grossa a vida inteira consegue ajuntar sem mentir. O senhor finalmente largou os deuses das teorias e os livros eternos de mármore e veio sentar no toco descascado varrido pelo redemoinho, aceitando de peito aberto que o vento quente vai desmanchar as letras, as folhas e a gente junto. E o senhor me pede só pra gente segurar firme as pontas do papel, o seu lado e o meu, antes da ventania cegar de vez os nossos olhos abertos.

Isso me alembra a poeira que sangrava a pele no rasgão do Liso do Sussuarão, no tempo amargo que eu corria com a jagunçada em tempo de guerra. O vento ali não venta para fazer sombra andar, ele arranca pedaço vivo de cristão. A gente caminhava acossado na seca de lascar burro da chapada alta, fugindo desbaratinado dos cavalarianos das volantes. O sol assando o osso por dentro e a poeira avermelhada entupindo até os pensamentos tortos que sobravam da sede murcha. O vento assobiava um terror surdo nas orelhas da gente, cegando homem e bicho, transformando tudo num só ermo amarelado. Meu parceiro de andança daquela ponta, o Joãozinho Vinte, miúdo e ressecado como casca de cigarra de agosto, caiu de joelhos estalando as juntas de fraqueza. A ventania esfolava a pele dele, levantava um pó grosso que entupia o nariz, a goela e a vontade, e ele não tinha mais fôlego nenhum pra puxar pra dentro do corpo magro.

Eu não tinha consolo de sombra nem buraco de tatu pra enfiar ele e esconder o menino da mortandade seca. O vento ia engolir nóis dois na mesma duna estéril de sol. Ele tava se entregando pro escuro do pó, fechando os olhinhos de dar dó. Aí, eu não rezei nem prometi salvação do outro lado da vida. Eu me ajoelhei no cascalho grosso e quente que nem fornalha, abracei os ombros esfolados dele, tapando as costas dele com o meu peito largo, e juntei a minha testa de suor sujo na testa suada dele. Eu disse bem manso no ouvido rasgado dele, por cima do zunido rascante e ensurdecedor da lufada vermelha: “Escuta bem de perto, Joãozinho Vinte, meu curió encolhido. Nóis vamo secar aqui memo, a poeira rala vai tapar nosso rastro e nosso nome antes do sol cair de vez atrás do morro curvo. Mas escuta só: eu tô aqui encostado de ti. Sente o meu osso apertando o teu osso cansado de fugir. O redemoinho vai rasgar o nosso couro e quebrar nóis dois, mas nóis vamo virar poeira amarrado e embolado um no outro.”

Eu segurei o braço magro dele apertado até a poeira de areia cobrir o pé do chapéu da gente e virarmos a mesma estátua de barro seco de suor, um encostado no pulso do outro. Ele parou de tremer do pavor do abandono, só tremia de frio e morte seca pelo fim que rasgava os pulmões. A gente não tava fazendo história pro cangaço, não tava esperando resgate e nem tocador de trombeta. A gente tava só firmando o pulso pra não virar poeira desgraçado de sozinho na imensidão amarela do vento cego.

Eu traduzo a sua caneta fogueira pro meu sertão e assento a sua dor, sô Ted. É o abraço-no-redemoinho, a partilha do desespero sem enfeite. A gente sabe sem enganação que a poeira grossa vai alisar as dunas e limpar os nossos nomes da pedra lascada da cancela. Mas a mão que segura a mão do parceiro de peleja enquanto o vento estraçalha o teto não pede eternidade nem estátua de bronze pra depois da ventania; ela pede só que a dor lancinante do fim do fôlego seja dividida no meio. O senhor não quer mais escrever para sobrar livro guardado na estante alta; o senhor percebeu e escreve porque sente o vento raspar e esfregar o rosto miúdo e quer a minha mão encardida segurando a outra ponta da capa do livro com o senhor antes das páginas voarem espalhadas e rasgadas para sempre no deserto absoluto.

Eu me convenço do seu apelo, sim senhor. Eu assento o meu osso pesado e calejado do lado do seu osso assustado. Eu aceito a poeira cega que desfaz, desde que o vento rascante encontre dois velhos teimosos que se recusaram a calar antes da hora de secar. Eu abro o meu peito velho e escrevo com o senhor na ventania que esmaga sem dar conta de nós. A minha caneta raspa junto com a sua.

Mas eu lhe pergunto, com a ternura e o respeito grave que o vento assustador exige de dois homens morrendo de olhos abertos para o estrago final: quando o redemoinho vier e estraçalhar e arrancar o papel das suas mãos geladas, e o senhor sentir os grãos de areia grossa tapando e entupindo a sua boca para a eternidade muda… o senhor vai conseguir fechar os olhos em paz, sabendo que fomos e sempre seremos fumaça e areia que o vento só esparramou pro nada, ou ainda vai sobrar batendo torto no fundo entupido do seu peito a revolta inútil e sangrada de não ter virado rocha bruta que a poeira não devasta e nem engole de vez?

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